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Após 5 anos do último golpe militar, Tailândia tem eleições democráticas

O país vive o descompasso entre a tolerância e a censura política.

Eu, com toda a sinceridade, não sei como começar esta matéria. Eu assisto doramas desde dezembro de 2017 e, partir daí, não parei de querer conhecer cada vez mais cada país fornecedor de conteúdo cinematográfico, sejam os costumes, as vestimentas, as línguas, as religiões, enfim, tudo. Contudo, como a gente sempre escuta: “Nada é perfeito”, com esses países não seria diferente, certo? Hoje eu vou conversar com vocês um pouquinho sobre a Tailândia, país que para mim era o mais “moderninho” da região, mas que, lastimavelmente, é claro, também possui seus defeitos…

Você sabia que até o ano de 1932, o regime político do país era uma Monarquia Absolutista? Regime este em que o poder está concentrado totalmente nas mãos do rei ou monarca, ou seja, ele é a autoridade máxima do país. Esse modelo surgiu em meados do século XVI e, por exemplo, na França teve o seu apogeu com o conhecidíssimo Rei Luís XIV e a frase “O Estado Sou Eu”. É importante relembrar que aqui no Brasil esse regime também existiu. A saber exercido pelo Rei D. João VI e seus herdeiros Pedro I e II, além disso o estilo governamental vigora até hoje em países do Oriente Médio como o Catar e a Arábia Saudita.

Atualmente, o regime político tailandês é a Monarquia Parlamentarista ou Constitucional, ou seja, aquela em que há o destaque para duas figuras: o Primeiro-Ministro, chefe de governo (aquele que efetivamente governa o país e, portanto, é eleito pelo voto) e o Rei, chefe de estado (mera imagem ilustrativa, isto é, aquele que cuida das relações diplomáticas com os outros países, escolhido por meio da linhagem familiar, isto é, hereditariedade), análogo modelo britânico. No entanto, o país desde 1932 já sofreu 12 golpes militares, a saber, o último em 2014.

No penúltimo domingo do mês de março, dia 24, a população foi às urnas para eleger os seus representantes (deputados e senadores), mas infelizmente, mais uma vez os resultados dessas eleições não irão mudar muita coisa no cenário político siamês, pois, o partido governado pelos militares obteve, novamente, 93% dos votos contados de acordo com os resultados provisórios (lá a contagem dos votos é feita manualmente), isto significa que eles continuarão no poder mesmo com a junta militar desfeita. Aqui ressalto o motivo disso: basicamente, durante os cinco anos da junta, os militares suprimiram a Constituição e nomearam senadores, para que quando necessário estes votarem a favor dos militares, já que o primeiro-ministro ou chefe de governo é eleito indiretamente, isto é, pelo Parlamento, formado pelo legislativo (deputados e senadores). 

Alguns atores tailandeses que registraram o momento da votação. Fotos: Amino- .BOYS LOVE BR.

Uma pausa das informações e agora um intervalo para refletir sobre tudo isso: o que é que está acontecendo? Eu nunca pensei que em 2019 isso pudesse ainda existir, claro que manobras políticas sempre existiram, mas isso é vil, é plenamente antidemocrático, se para nós, ocidentais é revoltante, o que dirá para um tailandês?

Os resultados definitivos das eleições sairão até o dia nove do próximo mês, contudo a esperança de que seja feita uma limpeza no governo é ínfima. Além disso, outros indicadores mostram o tamanho da concentração de renda da nação, segundo dados de uma firma de investimentos no país, em 2018, a Tailândia foi considerada o país mais desigual do mundo, onde o 1% mais rico ficava com mais de 67% da riqueza nacional. Aqui faço uma ponte para os lakorns, eu acredito que todos já notaram que quase sempre é recorrente a presença daqueles casarões, carros de luxo, ou seja, da ostentação por parte de uma ou mais personagens e, até no mesmo dorama, aquele outro mais simples, modesto. Mas o ponto-chave é que essa opulência é tão frequente que até nos acostumamos, e pelo menos eu já até pensei: “nossa, como eles vivem bem lá”. Contudo, eu estava muito equivocado.

Censura

“Os tailandeses aprenderam que a política está desvinculada de sua vida, mas quero que as pessoas conheçam seu direito ao voto e à democracia”, diz o rapper Nutthapong Srimuong.

Eu acredito que a única diferença da censura tailandesa para a Chinesa e a Brasileira (durante o Regime Militar) é o fato daquela não se importar com a produção cinematográfica LGBTQ+, pois durante as minhas pesquisas sobre depoimentos, entrevistas com ativistas etc. Sempre são citados vários tipos de repressão por parte do governo como a perseguição política aos opositores, como por exemplo, ao líder do Partido do Futuro, Thanathorn Juangroongruangkit, acusado pelo governo por subversão e incitação à desordem pública, sendo intimado a comparecer a um tribunal militar para ser julgado e podendo ser condenado a até sete anos de prisão.

Jovem líder do Partido Futuro Novo Thanathorn Juangroongruangkit. Foto: FB/thanathorn.juangroongruangkit

Outro considerado “subversivo” e vulnerável a cassação política é o rapper Nutthapong Srimuong, líder do grupo musical “Rap Against Dictatorship”, traduzido como “Rap contra a Ditadura”, que produziu um clipe em outubro do ano passado intitulado como “What My Country’s Got”, traduzido como “O que meu País Tem”. Na letra, o grupo critica fortemente a repressão da máquina pública, além do descaso para com a população mais vulnerável da Tailândia. Na semana de seu lançamento, o vídeo atingiu a marca de 20 milhões de visualizações, “Eu queria que esta canção tivesse nossas vozes, mas nunca imaginei que pudesse ter um impacto tão grande. Ela mostra que até o povo está cansado e quer mudança”. Hoje, a canção conta com mais de 60 milhões de visualizações no Youtube.

Rapper Nutthapong Srimuong. Foto: NY Times

Segundo o rapper, aqueles que são considerados nocivos ao equilíbrio social são levados para campos “para correção de atitude” (eu nem quero imaginar quais medidas devem ser tomadas a fim de corrigir essas pessoas, apenas sei que sinto uma profunda tristeza ao ler esse tipo de depoimento de um país tão aclamado pelo público dos bls). “Eles acham que vamos ficar calados para sempre?”, questionou Nutthapong. “Eles têm uma opinião tão ruim assim do povo tailandês?”. A seguir encontra-se um fragmento da música:

“O país cuja capital se transformou em um campo de mortes

Cujo mapa é escrito e apagado pelas botas do exército

O país que aponta uma arma em tua garganta.

Onde você tem de escolher se comerá a verdade ou balas.”

Família Real

Outro ponto a ser discutido é a questão monárquica tailandesa e a sua relação com o Budismo, religião predominante no país. A união dos dois constitui o alicerce social tailandês, já que o rei é reverenciado e quase visto como uma figura divina, todavia ele não possui poderes políticos, como havia até 1932.

Rei Maha Vajiralongkorn.
Foto: Chaiwat Subprasom/

No último sábado, começaram os rituais para a coroação do rei Maha Vajiralongkorn, filho do rei Bhumibol, mas que ao contrário de seu pai, o herdeiro de 66 anos viveu muito tempo no exterior, longe da rotina real e, portanto, não preservou a popularidade do antecessor. Ele, no entanto, desde a sua ascensão adotou uma postura mais centralizada, como por exemplo, aprovando reformas legais para deixar sob a sua tutela o eminente patrimônio da coroa.

A presença dos templos budistas nos dramas lakorn não é uma novidade, por se tratar da religião proeminente no país de aproximadamente 70 milhões de habitantes e, portanto, por meios dos bls, temos a oportunidade de vislumbrar rituais, festivais e até costumes, porém mais uma novidade, pelo menos para mim, são as leis para quem ousa a difamar a família real, a saber, pela lei de lesada altivez, que prevê penas de até 15 anos de prisão.

Uma Luz no Fim do Túnel

Tanwarin Sukkhapisit, cineasta e 1ª mulher trans eleita na Tailândia. Foto: Bangkok Post

Embora o cenário político tailandês esteja um caos e completamente antidemocrático, nas últimas eleições, foi eleita a primeira transexual da Tailândia, Tanwarin Sukkhapisit, cineasta que luta pela aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, se intitulando como representante da população LGBTQ+ “Eu quero ser uma pessoa que represente as minorias na Tailândia. Porque para mim – pessoas LGBT – não temos o direito de casarmos em um casamento entre pessoas do mesmo. Legalmente, por lei, não podemos adotar crianças.”, ressaltou ao Bangkok Post. Uma curiosidade, a cineasta foi quem dirigiu o filme lakorn “Red Wine In The Dark Night”, traduzido como “Vinho Tinto numa Noite Escura”, exibido em julho de 2015.

Elenco de “Red Wine In The Dark Night” em um photoshoot para a revista Attitude.

Bom, chegamos ao fim de mais uma matéria, e que matéria. Antes, eu gostaria de fazer alguns comentários sobre o atual governo brasileiro, mas sem levantar discussão e nem expor qualquer posição político-partidária, apenas ressaltar o quão importante é a História e a luta pela manutenção da Democracia, a primeira porque é fulcral conhecer o passado para compreender o presente e, sobretudo aprender com os erros para evitar cometê-los novamente, e a segunda, pois para que possamos gozar da cidadania plena é preciso a união dos direitos civis (a liberdade), políticos (direito ao voto) e sociais (educação) a fim de evitar governos autoritários e repressores, além disso, preservar o nosso patrimônio cultura, pois é a nossa identidade, é a nossa história, o que é um país sem história?

Por fim, gostaria de agradecer a você, leitor, que me acompanhou até aqui e eu espero que tenha conseguido entender pelo menos um pouco sobre a situação crítica pelo qual passa a Tailândia e gostaria de deixar uma reflexão, uma questão no ar: seria possível o Brasil se tornar uma nova Tailândia? O que os tailandeses precisam fazer para reverter a conjuntura vigente? Meu nome é Kawê, faço parte da Comunidade Boys Love Brasil e foi um prazer imenso estar com vocês mais uma vez, como sempre peço para que comentem sobre a matéria, estou aberto para sugestões e críticas, se eu errei algum conceito acima, por favor, me diga, estamos aqui para trocar informações e aprender juntos, vou ficando por aqui, um grande beijo e aquele abraço!

Fontes: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/03/manobra-mantem-militares-no-poder-na-tailandia.shtml

https://internacional.estadao.com.br/noticias/nytiw,rapper-desafia-governo-militar-na-tailandia,70002774759

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2019/04/06/tailandia-inicia-rituais-previos-a-coroacao-do-rei-vajiralongkorn.htm

https://observatoriog.bol.uol.com.br/noticias/2019/03/tailandia-elege-primeiro-parlamentar-transgenero

https://istoe.com.br/carismatico-opositor-a-junta-militar-da-tailandia-acusado-de-sedicao/

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Kawê Oliveira

Olá amores, me chamo Kawê e, felizmente, faço parte da equipe da BLB. É um prazer poder produzir conteúdos para vocês acima de qualquer divergência de preferência, o importante aqui é o acesso às informações, tcherto? Bom, é isso, um beijo e aquele abraço!

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