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Questão Racial no Oriente

Olá, pessoal, tudo bem? Eu espero que sim. Bom, hoje irei conversar um pouco com vocês sobre um assunto bastante polêmico não só aqui no Brasil, mas em todo o mundo. Estou referindo-me ao racismo. Antes, preciso justificar o que me motivou a estar aqui, foi o dorama lakorn Great Men Academy.

Para quem já assistiu (mais fácil será a visualização da descrição a seguir), peço que tente recordar os episódios finais do drama em que uma das personagens, P’Vier, começa a relembrar a sua infância, principalmente, o relacionamento que possuía com o seu pai, eleito o primeiro “greatest” da academia. Caso você, leitor, tenha uma memória profícua, o fenótipo da personagem quando criança era, basicamente, negro, gordo e de cabelos pretos e bagunçados (um fofo!).

Mas quando se torna adolescente, muda completamente. O ator que interpreta Vier na fase juvenil é Ice Paris, integrante do grupo musical tailandês 9×9 (Nine By Nine). O fato que chamou a minha atenção foi, inicialmente, o descuido da direção quanto ao fato da personagem ser fenotipicamente diferente, principalmente quanto ao tom de pele, já que o fator físico pode ser facilmente modificado, inclusive este é um dos pontos que as memórias de Vier nos mostra.




P’Vier quando criança e depois adolescente. Imagem: Reprodução

Entretanto, após um longo período de reflexão, recordei algumas conversas que tive com amigos sobre a questão racial na Ásia, no que diz respeito da maneira como eles lidam com o assunto. Assim, pude recuperar uma informação sobre o fato de um japonês mais bronzeado, por exemplo, ser considerado menos bonito do que outro de pele mais clara, uma vez que aquele é remetido à imagem do camponês, trabalhador braçal que passa horas debaixo do sol e, devido à sua ocupação, recebe olhares negativos.

Esse estigma atribuído ao trabalhador rural fez com que eu também associasse ao caso brasileiro, a saber, com o advento da imigração durante o século XIX, em que o senador Campos Vergueiro consultou o Imperador Dom Pedro II sobre a sua opinião a respeito da possibilidade de trazer povos de outras nações para terras nacionais e, a resposta do Monarca foi positiva, já que a chegada de europeus no Brasil, segundo ele, representaria um branqueamento da população.

É claro que não pretendo aprofundar-me muito no Brasil, mas é interessante entender a mentalidade dos brasileiros daquela época, além disso, é inevitável não citar as teorias pseudocientíficas que apareceram no final daquele século, como o Darwinismo Social, que pregou e tentou justificar a superioridade entre as raças. Acho que já me estendi deveras.

Retornando ao deslize do diretor, na verdade, como disse, após pensar muito a respeito, não sei se posso dizer que foi um equívoco ou quem sabe, uma crítica. Crítica? Sim. Como já disse algumas centenas de vezes, por trás de toda obra há sempre uma análise social, ainda que implícita.

Sendo assim, neste caso, pode-se-ia dizer que o fato da personagem apresentar-se totalmente embranquecido anos depois está relacionado aos padrões de beleza asiáticos, à indústria de cosméticos, à polarização sul-coreana e ocidental, ao racismo. Bom, caso você, leitor, esteja achando tudo isso que acabei de falar muito surreal, convido-o a permanecer mais um pouco, pois irei discorrer sobre tais tópicos com certo embasamento.

Japão

Titubeando pela internet, encontrei informações sobre artistas considerados referências quanto à tonalidade da pele e, para confirmar aquela conversa que tive com alguns amigos, uma das atrizes que contracenou com o ator Tom Cruise em O Último Samurai (2003), Koyuki Kato, foi eleita, em 2009, sinônimo de pele perfeita. Hoje ela atua principalmente no cinema nacional japonês, ademais, é modelo e embaixadora de marcas de produtos de beleza.

Koyuki Kato. Imagem: Pinterest

Um procedimento comumente utilizado no Japão é o whitening, isto é, tratamentos para o clareamento da pele por meio de cremes, peeling químico, laser e outros.

Eu não sei vocês, mas eu tenho a impressão que os japoneses que se submetem a tais processos, principalmente as mulheres, devem querer ficar cada vez mais parecidas com as gueixas com aqueles rostos brancos carregados de pó de arroz, fica a dúvida no ar.

Ainda sobre o país, segundo dados do Ministério da Justiça, cerca de 30% dos estrangeiros que residem no Japão afirmam ter recebido comentários discriminatórios devido a sua nacionalidade, enquanto aproximadamente 40% sofreram preconceito ligado à sua moradia. Entre as adversidades encontradas pelos imigrantes destacam-se: a diferença salarial, a impossibilidade de obter um imóvel e insultos de estranhos.

Outrossim, o número grupos ultra-nacionalistas que pregam discursos de ódio em passeatas nas grandes cidades japonesas está aumentando, o que deixa os estrangeiros cada vez mais inseguros.

Índia

Ocupando a segunda posição no ranking de maior concentração humana, a Índia também é um país onde o número de simpatizantes a produtos de clareamento de pele são elevados, sobretudo o público feminino.

A indústria de cosméticos indiana cresce anualmente, segundo dados da farmacêutica Ethicare Remedeies, os tratamentos para o branqueamento epidérmico gerou cerca de 30 bilhões de rúpias (aproximadamente US$ 500 milhões) em 2013, sendo o segmento estético que mais cresce no país.

A causa para esse aumento está na relação tácita entre a cor de pele e status social. “Um rosto claro sempre foi associado com o êxito e a popularidade. Homens e mulheres desejam a clareza por igual, acredita-se que é a chave de uma vida bem-sucedida”, apontou um estudo da Universidade da Cidade de Nova York sobre a pele clara na Índia.

Para um cirurgião plástico de um hospital de Nova Délhi, a origem dessa “obsessão com a clareza do rosto” está na era colonial, uma vez que o país esteve sob o domínio britânico até 1947; já outros acreditam que a vontade de ter uma pele mais clara está relacionada a sociedade hindu de castas, intrínseca a Índia.

O desejo pelo embranquecimento está presente até mesmo nos anúncios de jornais pela busca de casais, visto que no país o casamento arranjado é uma regra. Ah essa Ásia e esses casamentos arranjados… Eu não aguento! Exemplos dessas propagandas são: “Mulher trabalhadora de Chennai (sul), de pele clara e vegetariana (…) procura homem de pele clara e bonito” ou “Estou buscando uma mulher de pele muito clara, magra e especialmente bonita”.

Coreia do Sul

Infelizmente não é só do k-pop que vive a Coreia do Sul. Na verdade, preciso ser sincero com você, eu não sou fã do gênero, mas eu enxergo no pop coreano uma luz que pode libertar a população sul-coreana do seu passado marcado por revanchismos e uma visão conservadora quanto ao nacionalismo étnico e o purismo social.

O nacionalismo étnico coreano tem como mito fundador a lenda do senhor celestial Hwanin, que, por volta do ano 2 mil a.C., desceu dos céus sobre a montanha Baegdu e nela fundou a Cidade dos Deuses. Ali ele teve um filho, Dangun, que é considerado o ancestral de todos os coreanos. Todavia foi só durante o período de ocupação japonesa na península coreana (1910-1945) que a lenda começou a ser reavivada, numa espécie de tentativa para reacender o espírito nacionalista coreano e encorajar a população para resistir ao violento processo de aculturação japonesa.

Mais ou menos como fez Benito Mussolini no fascismo italiano, que em seus discursos extremamente demagógicos remontava ao antigo vasto Império Romano, com intuito de alimentar o nacionalismo entre os italianos e atingir, por conseguinte, seu objetivo na consolidação do poder.

Segundo Se-Woong Koo em um artigo de opinião publicado pelo jornal americano The New York Times, durante décadas o mito de uma “raça pura” foi ensinado em escolas e esse doutrinamento era parte da justificativa de se formar uma “unidade nacional”.

Acho que a inspiração para essa atitude é mais do que evidente, certo?

Em um caso de junho de 2017, um bar do distrito de Itaewon, em Seul, recusou um cliente indiano. “Nenhum índio”, dizia o segurança.

Atualmente, o fluxo migratório de refugiados iemenitas para o país é ascendente. A crise aumentou as tendências anti-imigração a ponto de o Iêmen ter sido retirado da lista de países que não precisam de visto para adentrar no território sul-coreano. Dessa maneira, as recentes medidas criadas pelo governo com intuito de se abrir para um multiculturalismo são colocadas em discussão, pois os protestos nas ruas da capital, Seul, com seus habitantes pedindo a saída de imigrantes intensificam-se a cada dia.

De acordo com um censo realizado em 2014, o número de estrangeiros nas duas Coreias equivale a 4%, isto é, numa população de pouco mais de 51 milhões, menos de dois são imigrantes.

Para finalizar a discussão coreana, no dia 9 de agosto foi lançado um k-drama de gênero musical que conta história de quatro estudantes do ensino médio envolvidos pela cultura do hip hop. “Hip Hop King” é produzido pela SBS e conta com uma personagem negra, Han Huyn Min, interpretado por Seo Ki Ha. O dorama ainda está em lançamento e os episódios são postados às sextas pelo canal da SBS.

Protagonistas de “Hip Hop King”. Imagem: Soompi

China

Localizada na primeira posição do ranking de maior aglomeração humana, a China apresenta uma expressiva diversidade étnica em seu território, ainda que cerca de 92%  do 1,4 bilhão das pessoas que vivem lá pertencem à etnia dominante Han.

Pelo fato do gigante dragão possuir um modelo político ditatorial, muitos dos casos de racismo são abafados ou simplesmente “ignorados” pelo governo e até mesmo pela própria população, submetida a um ambiente opressor, marcado pela censura.

A questão racial chinesa assim como muitos outros países da Ásia tem cunho estético, isto é, está relacionada a um padrão de beleza imposto pela sociedade, que está, por sua vez, associado ao tipo de profissão exercida pelo indivíduo, como no Japão. O auge da questão está na presença de muitas subdivisões étnicas mal distribuídas ao longo do território, o que facilita a ocorrência de intolerância e perseguição contra as minorias.

Isso fez com que recordasse de uma notícia da BBC que li há algum tempo, a qual relatava a limpeza étnica realizada por Pequim contra a minoria uigure, localizada na região do Sikiang (noroeste do país). Basicamente, o governo está sequestrando as crianças desse povo e levando-as para reformatórios sob a justificativa de que nesses lugares elas estão mais seguras e recebem uma educação de qualidade. O fato é que ninguém sabe o que se passa lá dentro. China, por que você só me desaponta?

Assim como a Coreia do Sul, a China também é alvo de refugiados e, tanto os cidadãos sul-coreanos quanto os chineses, em grande parte, não querem a presença desses imigrantes em seus países. Uma pesquisa realizada no Weibo, principal rede social chinesa, análoga ao twitter/facebook, mostrou que 90,3% dos chineses não aceitariam refugiados em suas casas, enquanto 73,6% não os aceitariam nem em sua vizinhança nem em sua cidade.

A evidente postura xenofóbica ou patriótica da população destoa dos recentes mecanismos diplomáticos do governo, que se aproxima cada vez mais dos países da África, com intenções de mercado. Logo, a fim de manter boas relações com as nações africanas, o atual presidente chinês, Xi Jiping vem criticando práticas racistas no país, classificando-as como exceções pontuais. O que não é verdade.

O histórico racista chinês é muito antigo, a saber, com as propagandas veiculadas em âmbito nacional, mas se tornou explicitamente comum para seus habitantes. O caso mais repugnante, na minha opinião, foi de um comercial de sabão em pó em que uma mulher branca chinesa coloca um pouco do produto na boca de um rapaz negro e, depois, enfia-o numa máquina de lavar, ao término da lavagem, no lugar do homem negro, um homem branco chinês sai de dentro da máquina. Deixando a mulher extasiada com o resultado.

As repercussões do anúncio atingiram a escala global, abrindo discussões sobre a impossibilidade da comercialização de um produto desse tipo; na China, porém, poucos contestaram o conteúdo da propaganda e muitos não chegaram a ver problemas com o anúncio, inclusive a mídia. Até mesmo o proprietário da empresa chegou a afirmar que não havia notado a conotação racista do vídeo.

Entretenimento e Saúde

É indiscutível a polarização da indústria de entretenimento que dita um padrão estético totalmente inviável para aquela população, salvo algumas minorias étnicas que possuem, por exemplo, uma tonalidade de pele mais clara. Dessa maneira, torna utópica a realização do desejo de atingir o ideal de perfeição.

Além disso, questões econômicas também entram em discussão, visto que a indústria global de produtos para clarear a pele foi estimada em US$ 4,8 bilhões em 2017 (cerca de R$ 18 bilhões). Projeções indicam que esse valor pode dobrar até 2027. A maior parte da demanda vem de consumidores de classe média na Ásia e na África. O que desacelera medidas públicas mais eficazes para conter o uso indiscriminado de produtos para clarear a pele sem o acompanhamento médico.

O que permite abrir um debate sobre os limites da busca pela “perfeição”, aliás, isso existe? Deixo essa com você, leitor.

Opinião

A gravidade do assunto no outro lado do mundo atingiu proporções absurdas, pelo menos para mim, amante da cultura asiática, por isso preciso fazer algumas considerações finais.

O racismo é algo vil, acredito ser um conceito unânime. Tanto aqui no Brasil, nos EUA ou na China, guardadas as devidas proporções, as adversidades enfrentadas por indivíduos que possuem somente um tom de pele mais escuro são terríveis. Além disso, as associações que ainda são feitas, por exemplo, com o trabalho braçal ou a ideia de que o homem branco é superior ao negro, gente, o que é isso?

Não sei o que é pior: as pessoas não aceitarem a sua cor e, portanto, buscam tratamentos em busca do branqueamento ou aqueles que divulgam esse pensamento. Todas as cores são bonitas, todas. E se você um dia contestar a sua cor de pele, você precisa de ajuda ou se existir pessoas que não aceitam você por causa disso, elas precisam de ajuda.

Ainda que a nossa Constituição classifique o crime de racismo inafiançável, ele persiste, logo precisamos combatê-lo, juntos. A união faz a força, sim. Não importa se você é negro, branco, amarelo, indígena, a cor é uma mera característica biológica, não define quem você é ou o que é capaz de fazer. É necessário desconstrução, é preciso uma legislação mais severa, é nevrálgica a mobilização de toda a sociedade para exterminar esse pensamento altamente retrógrado e nocivo do planeta.

Bom, chegamos ao término de mais uma matéria, gostaria de agradecer a você, leitor, por ter me acompanhado até aqui. Como de costume, deixarei uma pergunta para você. Como dito antes, é recorrente a presença de comentários racistas nos doramas, em sumidade, nos Bls, dessa forma, o que nós, fãs ocidentais, poderíamos fazer para coibir esse comportamento, mesmo que seja “culturalmente comum d’outro lado do mundo”? Não me deixe falando só! Um grande beijo e aquele abraço.

Quero indicar uma canção muito boa da Karol Conka que fala exatamente o que penso sobre a diversidade étnica e cultural que não pertence somente ao Brasil…

Referências

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/viva-voce/noticia/2019/07/05/os-perigosos-tratamentos-para-clarear-a-pele-que-fazem-sucesso-na-asia-e-na-africa.ghtml

https://madeinjapan.com.br/2011/01/17/pele-de-porcelana-com-clareamento-de-pele/

https://oglobo.globo.com/sociedade/um-em-cada-tres-estrangeiros-residentes-no-japao-sofre-preconceito-diz-pesquisa-21142827

https://epocanegocios.globo.com/Informacao/Dilemas/noticia/2015/07/o-negocio-multimilionario-da-obsessao-pela-pele-clara-na-india.html

https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2017/09/como-uma-mistura-de-fascismo-e-socialismo-moldou-coreia-do-norte.html

http://www.chinalinktrading.com/blog/racismo-na-china-e-padrao-de-beleza/

 

Kawê Oliveira
Kawê Oliveira
Olá, me chamo Kawê e faço parte da equipe da BLB. Sou colunista e tradutor, é um prazer imenso poder auxiliar na produção de conteúdo asiático e LGBT acima de quaisquer divergência de opiniões. Fico por aqui, um grande beijo e aquele abraço.
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