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Militância no universo BL?

Spirit Fanfics e Histórias

Você já ouviu dizer que os conteúdos Boys Love (BL), como as séries, por exemplo, são criadas para o público teen (adolescente) feminino? Pois bem, se você já ouviu ou leu sobre isso em algum lugar, deve se perguntar do porquê de ser assim. Caso nunca tenha lido ou ouvido sobre isso antes, continue lendo este artigo e entenderá um pouco mais sobre as fronteiras do universo BL e o porquê de muitos fãs deste conteúdo fazerem apontamentos profundos sobre diversos tópicos que circundam as produções.

Para começar, preciso pontuar que aqui tratarei como sendo conteúdo BL, as produções cinematográficas (séries e filmes) que envolvam relações homoafetivas entre jovens (normalmente colegiais ou universitários), a priori, sem apelo de causas LGBTI+. Isso se faz necessário porque não existe uma concordância sobre o uso da expressão “Boys Love” no universo em que este se encontra difundido. Você já deve ter ouvido termos como yaoi, shounen-ai, lemon e outros (Alguns dirão que tudo é BL, outros dirão que não e outros citarão a origem dos termos pra você). Cabe ressaltar que não estou afirmando que apenas conteúdos com as qualificações acima são, de fato, os ditos BL’s, mas preciso partir de uma apresentação mais genérica do que costumamos assistir neste universo, embora tenhamos conteúdos bem diversificados por aí. Como quase tudo em nossa sociedade, a terminologia que envolve o universo BL também tem sido ressignificada com o passar do tempo (muito por conta da própria indústria e por conta de alguns preconceitos) e precisamos estar atentos a isto. Então vamos lá!

A deusa fujoshi

Muitas obras cinematográficas do universo Boys Love surgem das chamadas “novels” [Livros; muitos são Light Novels (Livros de romance)] que em sua grande maioria são escritas por mulheres e diz-se que estas obras são direcionadas para as adolescentes. Isto nos dá uma dimensão de que tipo de relacionamento entre homens podemos esperar, já que a obra parte do imaginário de alguém que, obviamente, não vive uma relação entre homens. Possivelmente, um homem escrevendo um romance entre duas mulheres pode perder algumas nuances desta relação (Ok, você não precisa ser um psicopata para escrever uma história com psicopatas e nem ser um bruxo para escrever uma fantasia, mas acho que você entendeu a diferença aqui). Logo, imaginamos que o foco da obra talvez não seja, de fato, discutir a relação na sua profundidade, mas sim nos conduzir pelo romance entre os casais associando-se a estas histórias diversos estereótipos e aspectos culturais conflitantes, mas que raramente são questionados. O foco está puramente no romance.

Um outro apontamento faz-se necessário: o choque cultural. Os conteúdos Boys Love, como todos bem sabem, são produzidos por países do sudeste asiático (tais como: Tailândia, Taiwan) e cada país tem sua carga cultural, suas questões políticas e isso tudo se reflete no contexto de uma obra. Acontece que cada país vive sua realidade e ao entrar em contato com uma outra realidade através de um conteúdo que não tem a preocupação de filtrar tópicos sensíveis, acaba por gerar alguma revolta ou contraposição com relação a alguns aspectos daquela obra. As produções BL estão atravessando as fronteiras de seus países de origem, isso está beneficiando grandemente a indústria local e aos fãs ao redor do mundo, mas todo choque de cultura traz pontos positivos e negativos.

Bom, nós amamos assistir BL’s e sempre damos aquela travada em alguma situação desagradável nas cenas. Por fim, pensamos: “Ah, é cultural!” e continuamos assistindo. No entanto, assistimos mais e mais conteúdos BL’s e somos sempre bombardeados por situações que nos chocam e podemos até não perceber de imediato, mas isso acaba por nos afetar. Não é incomum assistirmos conteúdos no qual os estereótipos são sempre reforçados. Vamos pontuar algumas situações: No mundo asiático, a beleza está pautada no quão branca é a cor da sua pele e isso é expresso na descrição das personagens, nas sinopses e dito pelas personagens em cena. Ser magro e alto. Raramente vemos personagens que aparentam a real condição do cidadão comum destes países. Atores assumidamente gays quase sempre perdem oportunidades de trabalhar em obras BL’s (eu não disse todos). Isso diz muito sobre representatividade e para quem de fato são estas produções (Ora, não deve ser para a comunidade LGBT). A romantização de relacionamentos abusivos e estupros sempre foi um tópico discutido por fãs internacionais, porém aparentemente pouco questionada pelo público local. Bom, estas são algumas das situações que geram discussão entre os grupos de fãs internacionais.

Espero que The Effect não romantize relações abusivas | The Effect – LINE TV

Por aqui, o pink money já é bem conhecido, né?

Bem, sabemos que as produções asiáticas fora do universo BL já trazem discussões mais profundas sobre assuntos polêmicos e são mais representativos. No entanto, ainda existem muitos países com políticas mais engessadas com relação a liberdade destas produções e quase sempre temos obras muito clichês, machistas e que romantizam situações desagradáveis. Onde quero chegar? Lembra do que falei sobre o choque cultural? Então, outros dramas, assim como os BL’s, estão cruzando suas fronteiras, tanto eles nos influenciam, quanto nós também fazemos nosso feedback. Acredito que as produções ainda não estão muito atentas ao feedback internacional quanto as questões sensíveis, mas já estão despertando quanto ao capital (dinheiro) e agora já pensam no “pink money” (recursos provindos do público LGBTI+). Ora, não é novidade para ninguém que o público gay consome conteúdo BL e obviamente dão retorno.

Vamos lá! Por que então estamos falando sobre militância no universo BL? Sejamos práticos, o universo BL há muito não é mais exclusividade do público adolescente feminino (se é que um dia foi exclusivo), mas os autores e produtoras assim sempre pensaram. Sim, certamente vende-se muito mais para o público jovem e provavelmente o público feminino consome mais romance do que o público masculino. Como eu disse antes, a sociedade não é estática, tudo muda e até mesmo o público que consome este tipo de conteúdo está mudando bastante. E essa mudança vem acompanhada das críticas. Com um público mais amplo consumindo conteúdo BL, os chamados grupos “militantes” têm surgido nesse universo. São fãs que pedem por mais representatividade, principalmente de obras que tragam personagens abertamente LGBT’s, que não romantizem situações sensíveis, dentre vários pontos já citados. Você com certeza já assistiu algo em que o personagem diz que não é gay e que gosta apenas daquele cara. Ora, qual o problema dele ser gay? Ou mesmo bissexual?

Taiwan realiza primeiros casamentos gays da asia – Uol

Estamos falando de estereótipos, certo? Você já deve estar acostumado com as classificações de “seme”, “uke” e “seke”. Ok? Ah, sejamos claros! “Ativo”, “passivo” e “versátil”. As produções normalmente trazem características bem marcantes para qualificar seus personagens com estes rótulos. Mas por que precisa ser assim? Será que existe uma real necessidade desta distinção. A impressão que tenho é a de que no formato de novel escrita para adolescentes do sexo feminino, é a de que elas precisam se enxergar no uke, então raramente temos personagens seke (eu disse raramente, mas não que não existam). A questão aqui é que nessa construção ou visão de personagem em que a adolescente precisa se enxergar no uke (os livros foram feitos para vender, né?), proporciona ou reforça um outro estereótipo que diminui ou praticamente ridiculariza os gays passivos. Nos conteúdos BL’s, o passivo (o uke) quase sempre é chamado “esposa” e é quase uma ofensa para alguns atores serem vistos como gays. No que isto importa? Bem, como sabem, muitos jovens gays consomem este tipo de conteúdo. Agora imagine todo esse preconceito e espelho sendo difundido na mente de um jovem que por vezes está inseguro em aceitar sua orientação e ser franco consigo e com quem mais queira. Pense nisso!

Dramolandia

Outras frases que nos espantam são: “Ele é tão branquinho”, “Ele tem a pele muito escura”, com certeza você também já ouviu frases do tipo. A indústria do BL é uma indústria que basicamente se sustenta por propagandas em suas produções e estas propagandas quase sempre são do ramo da beleza. Todas as formas de beleza? Não! Existem um padrão estético alimentado na Ásia e frases como as anteriores são o que alimentam o consumo por produtos de beleza. Estas produções alimentam um padrão estético praticamente inalcançável. O que dizer do público internacional com características diversas. Você pode até pensar: “Nossa, você não é obrigado a seguir o padrão de beleza deles”, “É a cultura deles nós não temos nada com isso”. Sim, pode até ser desta forma, mas será que você já não se pegou pensando em comprar um produto de skincare (cuidados com a pele) ou pensando que você não é suficientemente bonito ou atraente? Se você está em muitos grupos de fãs de BL já deve ter percebido que uma boa parte dos fãs tem alguma sensibilidade emocional ligada a aparência, tem transtornos de ansiedade, depressão. Não sou psicólogo, não posso avaliar a ligação destas sensibilidades com o universo BL, mas posso dizer que assistir a algo que alimenta estas sensibilidades é preocupante. É aí que nasce a militância no universo Boys Love.

Urban Asian

“Assiste BL quem quer”, já ouvi isso. Sim, nós amamos Boys Love. Essas produções trazem um universo que de alguma forma nos deixa feliz, é o nosso nicho, nosso espaço. Tem gente que gosta de conteúdos de tal gênero ou de outro, nós gostamos de BL. Normal, como qualquer outro fã de séries e filmes de conteúdos diversos. No entanto, nenhum gênero está livre de críticas e os conteúdos Boys Love não estão isentos destas. Os apontamentos dos fãs, principalmente dos fãs internacionais, são contribuições importantes para que estes conteúdos tenham maior relevância e que não sejam fonte de visões estereotipadas, alimentando transtornos à saúde mental e física de seus fãs.

xinachina

Eu não busco o fim das produções BL (eu adoro BL) e nem mesmo acredito que os escritores e produtoras vão mudar o conceito formatado para os roteiros de suas obras tão rapidamente, mas friso que o choque cultural é uma via de mão dupla e o retorno dos fãs internacionais destas produções deve pressionar, a longo prazo, a indústria a repensar pontos que ofendem fãs internacionais e talvez até o público local. Toda a discussão que trago neste artigo deve voltar para os apontamentos lá do início. O Boys Love hoje em dia é realmente apenas para o público teen feminino? E sendo ou não para o público teen, será que determinadas influências desse universo não afetam negativamente a saúde destas? Precisamos realmente nos preocupar com os pontos sensíveis difundidos por este universo? Será que a preocupação da militância BL com estes pontos sensíveis e a saúde mental dos fãs tem fundamento? Pense um pouco sobre estas questões, toda contribuição traz uma perspectiva para um futuro mais saudável dentro do universo Boys Love.

O universo Boys Love está passando por ressignificação e abarcando um público maior. Logo, precisamos fazer, sim, nossos apontamentos para que o público se sinta cada vez mais feliz ao assistir séries e filmes deste universo. Sem essa de “é só não assistir”. Minha perspectiva é a de que nossos BL’s continuem nos fazendo felizes e que as produções possam se preocupar cada vez mais com os pontos sensíveis e com a saúde da sua audiência.




Rigo
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Eu sou o Rigo, um sonhador que vive entre o mundo da ciência e do universo boys love.
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