Antecedentes – Neocolonialismo

Não é possível falar sobre China Moderna sem antes comentar a respeito do contexto o qual estava inserida quando começou a ganhar importância no cenário internacional da História contemporânea. Comecemos então pelo Neocolonialismo. Essa forma de colonização dos povos começou na segunda metade do século XIX, no pós Segunda Revolução Industrial.

As potências europeias, que passaram por uma dupla crise de subconsumo e superprodução, vislumbraram nos países afro-asiáticos uma válvula de escape para os seus problemas, uma vez que em 1885 foi realizada a Conferência de Berlim (ou Partilha da África), encontro dos principais líderes das nações europeias, liderada por Otto Von Bismarck – O Chanceler de Ferro alemão -, cujo objetivo foi a divisão dos territórios da África e Ásia segundo os seus interesses.

Ilustração da divisão dos territórios da China pelas potências europeias da época.

O Imperialismo na China

Dentre todas as implicações dessas repartições, destaco dois eventos que se sucederam na China. O primeiro deles, dividido em dois momentos foi A Primeira Guerra do Ópio (1842), conflito armado contra o imperialismo britânico, marcado por questões pontuais sobre a comercialização do ópio em terras chinesas, negada pela Dinastia Qing, mas ignorada pelas tropas da metrópole. Vale a pena destacar também o desfecho da primeira guerra, momento em que foi firmado o Tratado de Nanquim, estabelecendo a abertura de cinco portos chineses para o ocidente e a concessão de Hong Kong para o Reino Unido, iniciando aqui a questão com a ilha.

A Segunda Guerra do Ópio (1860) foi nada menos do que a continuação da primeira, em que as tropas imperiais, revoltadas com a incapacidade de controlar o tráfico de ópio no seu território, tentou, mais um vez, erradicar com a presença dos britânicos, porém, assim como em 42, teve a sua derrota marcada pela assinatura do Tratado de Tiajin, que impôs ao país, além de indenização aos países vitoriosos, a abertura de mais cinco portos para o comércio internacional e a garantia de liberdade religiosa aos chineses católicos.

Além dos conflitos com o ópio, houve também a Guerra dos Boxers (1901), que ao contrário do que geralmente se deduz pelo nome, não foi um conflito de lutadores de boxe, mas sim um movimento xenofóbico e antiocidental com o propósito de expulsar toda e qualquer influência estrangeira do território chinês, bem como os cristãos.

É válido lembrar que as três maiores religiões professadas na China são: o Taoísmo, o Budismo e o Confucionismo, sendo, portanto, o Cristianismo uma das minorias até hoje.

Revolução Nacionalista  

A Dinastia Qing (ou Manchu), que esteve no poder desde meados do século XVII, foi o último governo imperial chinês, sendo destituída por meio da Revolução de 1911 (ou Xinhai), liderada por Sun Yat-Sen, criador do partido Nacionalista Chinês, popularmente conhecido como Kuomitang (KMT), esse período ficou marcado por nacionalismos e por introduzir a primeira fase da Revolução Chinesa, caracterizando a etapa nacional-burguesa em que se instalou uma República no país.

Os nacionalistas permaneceram no poder até 1949, porém até lá muitos outros acontecimentos marcaram a vida dos chineses, como por exemplo em 1921, com a criação do Partido Comunista Chinês (PCC) liderado por Mao Tsé-Tung, tornando-se desse modo, a principal oposição ao partido vigente da época. Iniciando, dessa maneira, uma Guerra Civil entre comunistas e nacionalistas que durou até a segunda parte da revolução. 

Chiang Kai Shek / Reprodução

Sun Yat-Sen morre em 1925 e Chiang Kai Shek assume em seu lugar, uma singela transição que mudou diametralmente os rumos do país. O novo líder do partido nacionalista passou a reprimir com voracidade seus opositores, a saber em 1927, promoveu um evento que ficou conhecido como “Massacre em Xangai”, um levante armado que liquidou inúmeros comunistas na cidade de Xangai.

Esse ato provocou um movimento reacionário, promovido pela oposição nos anos subsequentes. De 1934 a 1935, o PCC promoveu uma passeata de aproximadamente 12.000 km (pelo território chinês) a fim de recrutar novos apoiadores para a revolução, essa jornada pela China que recebeu apoio de muitos camponeses, ficou conhecida como a “Longa Marcha” e foi crucial para o que viria tempos depois.

Longa Marcha liderada por Mao no território chinês / Reprodução

Período Entreguerras – Invasões

Talvez não seja novidade para quem gosta de guerra, o fato de que o Japão sempre possuiu ao longo da História, uma postura imperialista e expansionista, mesmo tendo um enxuto território. Mas o velho ditado “tamanho não é documento” parece ser bastante válido para o pequeno país do pacífico que conquistou muitas terras durante as duas grandes guerras mundiais. 

Consequentemente, no que tange a relação sino-japonesa, existe, até hoje, ressentimentos do período entreguerras devido às invasões japonesas no território chinês, sobretudo na Manchúria, porção nordeste do país. Após a Longa Marcha, em 1935, nacionalistas e comunistas decidiram unir forças para derrubar um inimigo externo maior, o Japão.

A formação da Frente Única, nome dado a união das duas forças chinesas, foi importante para conter o avanço japonês na China, porém não a decisiva, visto que com o fim da 2ª Guerra Mundial, o Japão foi derrotado pelos Aliados e também bombardeado duas vezes pelos norte americanos.

Após o término da invasão japonesa, o PCC e o KMT voltaram a guerrear e somente em meados de 1947, com o início da Guerra Fria, o Partido Comunista recebe apoio da Ex-URSS e consegue, em 1949, tomar o poder, iniciando a segunda fase da revolução, agora de caráter camponês e agrário, liderado por Mao Tsé-Tung, dessa maneira, é instaurado um governo socialista, inaugurando assim a República Popular da China.

Revolução Socialista – RPC

Mao Tsé-tung

A República Popular da China foi marcada pela adoção de instrumentos já conhecidos cujo objetivo era a planificação da economia, estabelecendo as metas de produção industrial e agrícola do país por um período de cinco anos, esse modelo de inspiração soviético-stalinista, ficou conhecido como “Plano Quinquenal” e gerou grandes transformações no território chinês.

O Primeiro Plano Quinquenal (1953/57) tinha como meta a coletivização das terras, isto é, a reforma agrária; e o início do processo de industrialização no país. Porém, após a divulgação do plano, Stálin morre (1953) e Nikita Kruschev assume em seu lugar. O governo de Kruschev, diferente de seu antecessor, possuía uma postura mais liberal e paternalista, o que desagradou líderes do partido soviético e também chinês, sendo acusado de reformista por ambos. Essa mudança de comportamento levou a China a romper relações com a Ex-URSS e, consequentemente, acabando com o apoio financeiro que recebia.

O Segundo Plano Quinquenal (1958/62) foi decisivo para os rumos do país e ficou conhecido como “Grande Salto Adiante”, que promoveu a formação de comunas populares, em que basicamente 20.000 famílias ficaram responsáveis pela organização de indústrias siderúrgicas, o que gerou uma grande fome interna devido às péssimas colheitas e pelo modelo de produção priorizado, o industrial, uma vez que a China era um país essencialmente agrário. O que seria um grande salto, na verdade foi apenas um tropeço.

Revolução Cultural

Cartaz Revolucionário

Em 1966, Mao Tsé-tung, líder do PCC, frustrado com seu Segundo Plano Quinquenal e recebendo inúmeras críticas da oposição, sentiu-se ameaçado com o crescimento da polarização mundial no contexto da Guerra Fria, além disso, também temia que a revolução liderada por ele fracassasse, por isso, com intuito de conter tal retrocesso, decide aumentar a sua popularidade por meio do encorajamento dos setores revolucionários do país.

Numa tentativa do governo maoísta de insuflar jovens e trabalhadores a erradicar com a influência reformista ocidental na China, o Estado começou a investir em propaganda revolucionária, além de distribuir o Livro Vermelho, obra de Mao, a fim de propagar seus ideais. Essa tentativa fracassada de conter o avanço da cultura ocidental trouxe para o país a paralisação dos avanços tecnológicos e a estagnação da economia por dez anos, já que em 1976, Mao Tsé-Tung falece.

Reformistas chegam ao poder

Tudo o que Mao não desejou em vida, aconteceu após a sua morte. Os reformistas ascenderam ao poder. Deng Xiaoping também do Partido Comunista, assumiu o cargo de primeiro ministro da China em 1976, iniciando um período de reformas político-econômicas no país.

De lá pra cá, a China vem adotando uma política que economistas de diversas partes do mundo apelidaram de “Socialismo de Mercado”, termo que se refere ao modelo econômico chinês vigente, que permite a participação da iniciativa privada sob a vigilância do Estado, sendo este sócio majoritário das grandes empresas.

Deng, responsável por introduzir essa prática no país, ficou conhecido pelo seu “Pragmatismo Político” e sua frase icônica “Não importa a cor do gato, desde que ele cace o rato”. Essa postura representou um crescimento vertiginoso do PIB chinês, o que forneceu aos cidadãos um maior poder aquisitivo, principalmente devido ao aumento dos salários.

“Não importa a cor do gato, desde que ele cace o rato.”   – Deng Xiaoping

Basicamente, tal política tinha como base o projeto das “Quatro Modernizações”, um conjunto de reformas econômicas cujo objetivo era promover o desenvolvimento acelerado do país, sobretudo, nos setores da Ciência, Indústria, Agricultura e Forças Armadas. Além disso, buscou estimular a entrada de capital estrangeiro, bem como de empresas, caracterizando uma abertura gradual da economia chinesa, todavia sob os moldes do Socialismo de Mercado.

O avanço no âmbito econômico foi inegável durante os anos 70 e 80, no entanto as remodelações políticas também “prometidas” pelo primeiro ministro não foram cumpridas, o que causou revolta em grande parte da população. A nação chinesa ainda mantinha resquícios de autoritarismo dos seus antecessores, nesse contexto, não só o grande Dragão, mas em outros países de regimes socialistas, uma onda de protestos civis abalou as estruturas dessas nações, reivindicando reformas democráticas.

Em especial na China, a parcela intelectualizada e politizada da sociedade foi às ruas demonstrar insatisfação com a lentidão das reformas políticas que estavam sendo realizadas na última década, ou seja, exigia a democratização ou a “Quinta Modernização”.

Além disso, a classe menos favorecida da sociedade estava descontente com as mudanças econômicas que geraram inflação e desemprego. Esse segmento exemplifica que a elevação do PIB não acarretou necessariamente na distribuição uniforme da renda para os cidadãos.

O auge das manifestações que atingiram a China deu-se em 1989, em especial na virada da noite do dia 3 para o dia 4 de junho, quando militares receberam ordens para massacrarem cidadãos na praça Tiananmen. O evento ficou conhecido como “Massacre da Praça da Paz Celestial” e completou três décadas este ano.

Imagem Inédita de Jovem em frente ao tanque / Jeff Widener EFE

O acontecido ficou conhecido até hoje em todo o mundo, principalmente pela fotografia tirada de um jovem vestido de branco, que se colocou contra um tanque de guerra. A foto ficou famosa internacionalmente e o fotógrafo, Jeff Widener, foi indicado aos prêmios Pulitzer de 1990. 

A imagem evidencia as proporções que atingiram o autoritarismo chinês naquele momento e até hoje é proibido por lei falar sobre o acontecido. Esse foi um dos mecanismos de Pequim para deixar Tiananmen cair em ostracismo.

E Hoje, como está a China?

Hoje a China é um país que detém a maior população do mundo, governada por pelo Secretário Geral do PCC, Xi Jiping. Além de um território dotado de minérios como os metais de terra rara (80% do monopólio mundial) com enorme valor comercial, possui também uma vegetação diversificada devido a sua extensão territorial, todos esses fatores contribuem para o seu crescimento elevado e que ameaça substancialmente a posição dominante dos EUA.

Xi Jiping / Foto: How Hwee Young

Não é a toa que ambas as potências atualmente estão envolvidas numa guerra comercial, que se resume numa disputa protecionista de taxação sobre as exportações de produtos e, dessa maneira, afeta toda a dinâmica do mercado internacional.

Mas toda essa modernização financeira parece não estimular o governo a remodelar a sua postura conservadora para com seus cidadãos, resultando em perseguição política e censura. Será essa a receita para o sucesso econômico chinês? Deixe nos comentários a sua opinião. Até a próxima.