A avalanche de produções tailandesas com temáticas “boys love” que nós, fãs internacionais, temos acesso causa a impressão de que o país seria um paraíso para LGBTs, especialmente para homens gays. Afinal, vivemos num país em que casamento igualitário é aprovado – mesmo que ainda não seja lei -, a homofobia é criminalizada e, mesmo com uma indústria do entretenimento forte, não temos produções significativas com personagens LGBTs protagonistas. 

Observando a Tailândia com um olhar de um simples telespectador internacional de séries boys love, podemos imaginar um país com uma abertura social bem maior que o Brasil.  Mas ao mesmo tempo notícias recentes como a do deputado que precisou se desculpar após um beijo gay no parlamento causam a dúvida: Afinal, qual a realidade dos LGBTs na Tailândia? 

Já é possível adiantar: a resposta NÃO é simples. Num geral, a homossexualidade ainda é considerada ilegal em alguns países asiáticos. Em outros, como China, Russia e Indonésia, apesar de não ser considerado ilegal ainda é um grande tabu e possui baixa aceitação na sociedade. Até hoje, Janeiro de 2020, Taiwan ainda é o primeiro país com casamento igualitário aprovado. E é em Taiwan onde os maiores avanços para a população LGBT asiática estão concentrados: leis anti-discriminação foram aprovadas em 2004, 2007 e 2017; gays foram liberados para serviços militares em 2007 e o direito de mudar o gênero nos documentos tornou-se legal em 2008. O país que produz HIStory é, também, o maior centro LGBT asiático.

O Japão, centro do Yaoi no mundo, não tem leis anti-LGBTs desde 1880 mas ainda tem casamento igualitário. Já Camboja e Tailândia tem cenários bem parecidos: são centros LGBTs na Ásia, uma vida gay agitada nas capitais, Paradas LGBTs com público considerável mas ainda não possuem casamento igualitário legalizado. 

Focando no nosso querido país central na produção de séries boys love na Ásia, a Tailândia é um país complexo quando se trata de questões LGBTs. Bangkok , a capital, tem se notabilizado como a capital gay da Ásia. O Turismo LGBT na cidade tem sido fortemente propagado pelo governo local e existe um esforço notável para passar a ideia de um destino confortável e, acima de tudo, seguro para turistas. E esse esforço não é por nada: o Turismo LGBT movimenta 200 bilhões de dólares globalmente, enquanto a Tailândia recebe 5.3 bilhões de dólares anuais de visitantes LGBTs.

É importante destacar que Bangkok é a segunda cidade mais visitada por turistas no mundo, perdendo apenas para Hong Kong. E o turismo é uma das principais atividades econômicas da Tailândia, respondendo por 18% do PIB do país – visitantes estrangeiros geraram cerca de 63 bilhões de dólares para a economia da Tailândia em 2018 -.

Apesar do esforço governamental para exibir um país tolerante, o casamento igualitário ainda não tem sido discutido fortemente por entes governamentais. Em discussão no parlamento está uma espécie de união civil estável, possibilitando certos direitos para a população LGBT. Apesar disso, ainda não é oficialmente casamento e ativistas tailandeses têm pressionado para uma lei mais ampla. De fato, o casamento igualitário não enfrenta tanta repressão na sociedade tailandesa: segundo pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, mostrou que 47% dos tailandeses aprovavam o casamento igualitário, enquanto 31% da população é contrária.

A mesma pesquisa do PNUD mostrou que 61% da população tem atitudes positivas em relação aos LGBTs e 88% aceitariam pessoas LGBTs que não sejam familiares, esse percentual cai para 75% de aceitação quando o LGBT é da família.

O preconceito da família, algo pouco retratado nos dramas boys love pelas características narrativas dos mesmos, atinge 50% dos LGBTs tailandeses. Enquanto alguns pontos mostram certa aceitação da Tailândia, a pesquisa traz dados mais preocupantes: 52% não concordaram com a frase “Todos os transgêneros devem ter o direito de trocar seu gênero nas carteiras de identidade”; 42% dos LGBTs disseram já terem fingidos serem heterossexuais para não enfrentar preconceito. E quase metade dos LGBTs já pensaram em suicídio.

Então a resposta para a pergunta “Afinal, qual a realidade dos LGBTs tailandesas” é, como já dito, muito complexa. A aceitação da sociedade tailandesa que a grande maioria dos boys love transmitem é real até determinado ponto, mas a ficção ignora outros aspectos apontados por essa população. Tailandeses LGBTs ainda enfrentam alta discriminação nas escolas, universidades e vida no trabalho. Apesar disso, a Tailândia é um notável destino LGBT na Ásia e constantemente Bangkok figura no topo das listas das cidades mais gay-friendly do continente.