O filme sul-coreano “Parasita” foi o grande vencedor da categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Globo de Ouro, premiação que ocorreu no último domingo (05). O filme, que é o grande favorito na temporada de premiações, é a produção indicada pela Coreia do Sul para uma vaga na categoria de Filme Estrangeiro no Oscar. 

Apesar do histórico prêmio recebido no domingo, foi o discurso de vitória do diretor Bong Joon-Hoo que chamou atenção. Numa plateia lotada de artistas e executivos de Hollywood, o sul-coreano disse “Quando vocês ultrapassarem apenas alguns centímetros da barreira das legendas, vocês descobrirão tantos filmes incríveis”. 

A fala de Bong Joon-Ho é ainda mais emblemática num momento em que Hollywood, os EUA e a Europa, têm visto o seu poder no mundo do entretenimento diminuir diante do sucesso das produções de países não centrais. 

Hollywood, uma indústria extremamente fechada, tem relutado em reconhecer o sucesso das indústrias de cinema de outros países. Bollywood, na Índia, e Nollywood, na Nigéria, já ultrapassam os EUA em volume de produção e tem ganhado destaque mundial por histórias feitas por seus povos para seus povos, com narrativas que refletem muito da vivência da sua população. 

Nollywood, apesar de muito pouco conhecida por aqui, tem um volume gigantesco de produções de filmes. A indústria cinematográfica da Nigéria representa 1,4% do PIB do país e rende 3,3 bilhões de dólares anuais. A grande diferença das outras indústrias é que Nollywood tem sua grande força no homevideo, a grande maioria das produções são de baixo orçamento e distribuídas em formato de CDs e DVDs. Os cinemas no país ainda são escassos, então a pirataria surge com força na distribuição das produções. Apesar disso, desde 2015 existe um forte movimento de combate a pirataria e busca maior de qualidade técnica nos filmes. Você pode conhecer mais de Nollywood com o filme “Casamento às Avessas” na Netflix.

Bollywood, um pouco mais conhecida, é a maior produtora de filmes do mundo. Estima-se que de todos os filmes produzidos no mundo, 5% sejam produzidos na Índia. 

No campo da televisão e da música, a Coreia do Sul tem liderado uma revolução. O aparecimento constante do BTS nas premiações dos EUA é uma mudança na estrutura de eventos que se acostumaram a premiar única e quase que exclusivamente artistas do eixo EUA-Europa. A Billboard, parada musical dos EUA que durante décadas decidia o que era música estadunidense de sucesso, começou a ser sacudida em 2012 com o fenômeno de Gangnam Style, do cantor Psy. 

A expansão da onda coreana pelo mundo tem transformado a forma como os países centrais produzem seus conteúdos. Simon Cowell – jurado de reality, dono de gravadora e grande investidor musical britânico – criou recentemente um reality show disposto a achar um novo grupo pop para rivalizar com os fenômenos do K-pop. No anúncio, Simon disse estar criando o novo fenômeno do “UK-Pop”, numa clara referência aos fenômenos do K-Pop e “se esquecendo” do BritPop, estilo de pop britânico. A atitude do Simon representa muito o momento que vivem os países mais centrais na produção de entretenimento diante do movimento dos países não centrais. Existe um certo medo, talvez seja pavor, de perda do poder de influência desses países a partir da diminuição da força dos seus produtos de entretenimento. E uma palavrinha mágica está envolvida nisso: soft power. 

O soft power é uma palavra muito utilizada nas relações internacionais para definir a maneira que países influenciam outros países de forma diplomática utilizando elementos culturais. É algo tão forte que, no caso da Coreia do Sul, a hallyu foi e continua sendo um projeto do governo, apesar de ter um dinheiro privado muito forte. O governo sul-coreano apoiou projetos de k-pop e k-dramas e hoje colhe os milhões que a cultura rende pra economia local.

Com tudo isso dito, voltamos a fala do Bong Joon-Ho. Hollywood e toda a indústria de entretenimento Ocidental, leia-se EUA e Europa, sempre se fecharam em torno dos seus próprios projetos. Os produtos de entretenimento seguiam uma lógica simples: saiam desses países e eram exportados para outros países. Produções locais que faziam sucessos eram adaptadas para o consumo nos EUA e Europa, como a série brasileira “Como Aproveitar o Fim do Mundo”, de 2012, adaptada para “Now Tomorrow”, em 2016. 

Atravessar a barreira da legenda significa entender que outros países estão produzindo seus próprios conteúdos, a partir de suas próprias perspectivas e critérios de qualidade. Ultrapassar a barreira da legenda é ultrapassar a ideia que as produções dos EUA e da Europa são o auge da qualidade e da criatividade. Acima de tudo, atravessar a barreira da legenda é atravessar a ideia que o estilo de vida dos EUA e da Europa é universal.