“Não sou gay, só gosto de você”: a dinâmica da sexualidade nos BL. 

Qualquer pessoa que já tenha assistido algumas séries boys love já se deparou com a seguinte situação: o personagem X, homem, se apaixona pelo personagem Y, também homem. Mas o personagem X não se diz, ou pelo menos não se entende, como gay. O personagem X ou 1) tem namorada; ou 2) é o “pegador”. O personagem X afirma para o personagem Y “Eu não sou gay, só gosto de você.”. A retratação de uma sexualidade binária e heteronormativa se tornou quase regra na narrativa das séries boys love, colocar personagens se relacionando com homens, mas ainda se afirmando heterossexuais é algo mais palpável a ser aceito por um público ainda muito conservador em relação às narrativas que consome. Dessa forma, colocar a relação homossexual como algo único, um momento ou apenas uma relação, é menos chocante para o público. 

Consigo pensar, de cara, em vários séries que abordam a sexualidade dessa maneira. Manter o personagem heterossexual, sem cogitar uma homo ou bissexualidade ao se apaixonar por alguém do mesmo sexo, é uma estratégia narrativa usada com uma frequência muito grande. Mas, nesse texto, quero destacar três produções que saíram do comum e trouxeram boas discussões sobre a sexualidade de seus personagens. São produções do ano passado que, de certa maneira, marcaram um ponto de virada na discussão sobre sexualidade nos BLs.

  1.  Dark Blue Kiss: Muito criticada nas redes sociais; a parte final da história do Pete e do Kao me agradou muito pela maneira que o roteiro e a direção levaram as discussões sobre a sexualidade dos personagens. Ambos, Pete e Kao, lidaram com a sexualidade de forma muito diferente: Pete mantinha uma boa e saudável relação com o pai; já Kao relutava em se assumir para a mãe. A questão familiar foi um dos grandes destaques da temporada, a dificuldade do Kao em falar com sua mãe e o medo da rejeição é algo que provocou identificação com o público LGBT que passa por situações parecidas. No final, o diálogo dele com a mãe foi feito de uma forma delicada e especial. Sun e Mork também não entraram na onda do “sou hétero, só gosto de você”. Ambos se posicionaram como homens que gostam de homens em diversas situações ao longo da temporada.                            
  2. He’s Coming To Me: Como esquecer do diálogo do Tun (Não é “Than”?)  com a mãe? No diálogo delicado e emocionante, Tun diz não gostar de garotas e é prontamente acolhido pela mãe. A cena rara num drama boys love emociona pela maturidade na retratação do tema.                                                                                                        
  3. 3 Will Be Free: Talvez o grande destaque nesta temática. 3 Will Be Free tratou de forma única a bissexualidade e o poliamor, praticamente uma revolução na televisão tailandesa. Neo afirma amar igualmente Miw e Shin, e Shin se relaciona também com o personagem PP durante a história. 3 Will Be Free representou uma quebra muito forte de paradigmas na GMMTV, fugindo do comum e tratando, finalmente, de aspectos da sexualidade de forma mais ampla e menos binária

Poderia ainda citar outras séries, como Trapped e o plot Sun Bo e Lu Zhi Gang em Make Our Days Count, mas considero que as três citadas são o grande destaque nesse sentido. Espero que em 2020 as séries tenham cada vez mais a coragem de tratar da sexualidade fugindo da lógica heteronormativa e binária, se aproximando dos LGBTs.