Se alguém perguntasse para você, leitor, o que vem à sua mente quando é proferida a palavra ‘índio’? O que responderia?

Posso dar um palpite? Acredito que pelo menos uma destas você deve ter pensado: Amazônia, Floresta, Tribo, Caça, Canibal. Acertei? Conta pra mim nos comentários.

Cultura

Indígenas Xingu (Foto: Reprodução/Jornal GGN)

Mas por que de repente um questionamento desses? Bom, acho que já passou da hora de destruirmos alguns tabus e estereótipos que alguns de nós, se não a maioria, temos sobre os índios e não apenas eles, mas também a cerca de quaisquer manifestações culturais exóticas*. Na prática, tudo aquilo que não é ‘padrão’.

*A palavra ‘exótico’ realmente deveria ser usada aqui? Para grande parte da população, a manifestação cultural indígena é considerada “exótica” uma vez que não estão acostumadas com ela, mas se ela é, na verdade, a cultura original, por que a vemos assim?

Além de estereotipado, essa visão que temos é completamente racista e eurocêntrica, esta última pelo fato de ainda enxergarmos a população indígena como seres inferiores, talvez pelo fato de morarmos na cidade ou então de vestirmos roupas, quiçá ainda, por comprarmos o nosso próprio alimento em vez de coletarmos na natureza sozinhos.

É hipocrisia, a meu ver, ter esse tipo de opinião. É de conhecimento unânime que o povo brasileiro se fez, principalmente, a partir do contato não democrático e violento de três etnias: o branco europeu, o escravo africano e o indígena. Estão lembrados da história de Pedro Álvares Cabral lá em 1500?

Pois bem, pergunto então: que direito temos de considerar “menos civilizado” um povo que preferiu manter sua própria identidade a misturar-se com as outras? Qual moral temos para criticar uma sociedade que foi violentada e retirada de sua casa para trabalhar compulsoriamente nas minas de ouro?

Soldados índios da província de Curitiba escoltando selvagens – Jean Baptiste Debret

Além disso, como podemos opinar sobre um povo que, ao contrário do ‘povo da cidade’, que escolheu incorporar e até mesmo esquecer sua cultura mãe, até hoje mantém tradições e manifestações culturais milenares?  Vamos lá, leitor, você tem direito de fazer isso? Complexo do vira lata pegou forte desta vez?

Que estrago. É triste ver que poucos brasileiros não indígenas levantam a bandeira para se engajar na luta, por exemplo, de terras, algo que é muito irônico, uma vez que são de direito deles, mas que ninguém se importa, até mesmo o governo, que na verdade está preocupado em desmatar ela a todo custo para fazer crescer a produção de soja e gado extensivo de corte.

Religião

Que assunto chato. É sempre muito complicado falar sobre religião porque o tema envolve algo supra-racional, pois está relacionado com a . Então, peço gentilmente que sejamos neutros para conversar um pouco sobre a relação que a cultura indígena tem com a religião cristã.

Primeira missa no Brasil – Victor Meirelles

Foi durante o período colonial, mais especificamente durante o contexto da Contrarreforma, quando a Igreja estava percebendo que a Reforma de 1517 era um risco iminente para a perpetuação de sua hegemonia na época, que em 1534, foi fundada a Companhia de Jesus por Inácio de Loyola que, dentre os seus objetivos, estava a expansão da fé cristã por meio da catequização dos nativos no Novo Mundo.

A partir daí, as novas embarcações que chegavam aqui tinham também outro propósito: converter os índios para o catolicismo, humanizando-os, já que para os portugueses, os indígenas tinham hábitos não muito civilizados.

Catequização (Foto: Reprodução/Todo Estudo)

Uma curiosidade sobre a catequização realizada pelos padres jesuítas é que, no período posterior ao do ciclo açucareiro, quando se iniciou a extração mineral, havia conflitos entre padres e portugueses responsáveis pela administração do ouro (casa de fundição, intendência das minas etc), pois índio que fizesse o sinal da cruz (catequizado) não poderia ser explorado.

O tempo foi passando, os administradores de nosso país foram sendo substituídos, mas no fundo, nada se fez a respeito dos direitos desse segmento.

Somente depois de muita coisa e muita história, como a Independência, a República e a Ditadura, que, em 1988, com a atual Constituição, a questão indígena foi citada. No capítulo VIII, Artigo 231, intitulado “Dos Índios”, há um singelo lembrete sobre a sua existência, normas que deveriam ser seguidas e reconhecimento.

 Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens. (por como citação “ “)

Mas mesmo após toda essa exposição e lembrança sobre o documento mais importante para a manutenção da democracia em nosso país, são corriqueiras as injustiças e descasos que o povo indígena recebe do restante do Brasil e dos seus governantes. O ostracismo frio e desumano.

Há pouco tempo, por exemplo, a Presidência da Funai vem preparando a nomeação de um teólogo e missionário da organização evangélica americana MNTB (Missão Novas Tribos no Brasil) para um dos órgãos mais sensíveis da fundação, a Coordenação Geral dos Índios Isolados e de Recente Contato, isto é, de indígenas que habitam regiões mais interioranas e não tem aproximação com outros povos.

Um eventual contato pode ocasionar a ocorrência de enfermidades e mortes devido à extrema sensibilidade, além de um completo desastre étnico-cultural, visto que se trata de uma tentativa de evangelização, tudo isso em pleno século XXI.

Sim, há 500 anos, os índios foram submetidos ao Cristianismo e agora ao Protestantismo. Quem será o próximo? Até quando?

Sexualidade

Enfim o cerne da questão, precisamos falar sobre a discussão da sexualidade em algumas tribos indígenas.

Leitor, você já parou para pensar o que as tribos indígenas pensam sobre um índio gay? Será que eles lidam como algo comum ou interpretam como algo subversivo? Será que o pensamento de líderes de comunidades continuam o mesmo de antes da colonização lusitana? A religião cristã em algum aspecto afetou a visão sobre homo, bi ou transexuais? Antes de seguir, tente responder a todas essas questões.

Antes de falar sobre a situação atual, quero voltar para o início do século XVII, período em que Portugal e todas as suas colônias estavam sobre o domínio da Espanha por motivos políticos, momento esse conhecido como “União Ibérica” (1580-1640).

Foi em 1614, no Maranhão, que o primeiro caso de morte por homofobia foi registrado pela historiografia brasileira. A vítima? Um índio Tupinambá Tibira.

Estátua em memória a primeira vítima de homofobia no Brasil (Foto: UOL/Reprodução)

O termo ‘tibira’ vem do tupi e é usado para designar indígenas homossexuais, sendo utilizado muitas vezes com teor ofensivo.

Na época, a região foi alvo de uma expedição francesa liderada pelo frade capuchinho Yves D’Évreux, que ao entrar em contato com os índios Tibiras, ficou surpreendido, e conta a sua experiência com um desses nativos, pertencente à tribo dos tupinambás e, segundo relatos do seu diário “Viagem ao Norte do Brasil feita nos anos de 1613 e 1614”, ainda que parecesse “no exterior mais homem”, também era “hermafrodita” e tinha “voz de mulher”, características suficientes para justificar sua conversão e punição causadas pelo temor e pecado de sodomia contra Deus.

A punição para o Tibira, batizado por D’Évreux como “bom ladrão”, Dimas, perdoado por Cristo na crucificação, foi a morte. Ele foi amarrado pela cintura à boca de um canhão, numa execução pública aos pés do Forte de São Luís do Maranhão, sendo assistida por autoridades civis, militares europeus e chefes de diversas tribos indígenas.

Os motivos? Inúmeros. Desde crime contra a palavra de Deus e fé Cristã como o temor ao contágio que poderia atingir o homem branco, além de claro, servir de ‘exemplo’ para os demais nativos e colonos.

É válido lembrar que a homossexualidade era perfeitamente aceitável para tribos além dos tupinambás, como os Nambiquaras, Guaicurus, Tikunas, Bororos e Xambioás.

Isso corrobora que, desde antes da colonização, havia tribos que aceitavam a homossexualidade e outras não, mas que após o contato com o Cristianismo, o pensamento dogmático religioso intensificou a perseguição ao segmento LGBT indígena.

Eduarda, militante indígena LGBT da etnia Tuxá (Foto: Ayrumã Tuxá)

Mas e hoje? Com a globalização, propagação da tolerância e tudo mais, será que há tribos que ainda repudiam o amor entre pessoas do mesmo sexo ou membros que apresentem comportamentos diferentes do ‘normal’?

Para elucidar essa dúvida, pedi a uma colega da equipe da Boys Love Brasil para realizar uma entrevista com um membro de uma das comunidades indígenas da região norte do país, nos contando um pouco sobre a cultura deles e, principalmente, como eles lidam com a questão.

Ambos (o entrevistado e entrevistador) pediram para não serem identificados. Porém, adianto que o teor da entrevista é, com certeza, verídico e, para quem nos acompanha, sabe que sempre procuramos trazer informações verdadeiras, dessa forma, a não identificação de ambos não invalida a veracidade dos fatos.

BLB: Bom, vamos começar falando sobre uma Assembleia que aconteceu recentemente em Castelo Branco, comunidade do Alto Rio Negro, que discute o futuro da comunidade Baniwa e de povos adjacentes (são discutidas questões relacionadas a terra e território tradicional, além de saúde, educação etc). Primeiramente, como os antigos pensam sobre os indígenas que se reconhecem como LBGT?

Entrevistado: Então, o povo Baniwa não reconhece o povo LGBT. Não existe, o que há é o homem e a mulher, só há dois gêneros. Na Assembleia, por exemplo, foi decidido que o reconhecimento de pessoas que não fossem heterossexuais não seria aceito, pois há uma interpretação de que essa ‘aceitação’ seja uma influência externa, ou seja, é algo da cultura da cidade. Portanto, é dado apoio e não é tolerado.

É uma decisão [Assembleia] política e não científica.

Um dos métodos para evitar “casos de homossexualidade” é a realização de casamentos precoces, em que há um consenso de que quando a menina vira moça e o rapaz chega aos 14 ou 15 anos de idade, eles já tenham maturidade o suficiente para constituir uma família, dando continuidade a sua linhagem.

BLB: Conversando com um conhecido que também é Baniwa, ele comentou comigo que às vezes há casos de caras que ficam com outros caras, sim, na comunidade, só que no fim das contas, eles se casam, acabam tendo filhos e tem “uma vida comum”, como se tem na comunidade, culturalmente falando. Então, você acha que essas pessoas não se sentem confortáveis para assumirem o que elas acham que são? Ou porque elas acham que não entendem, elas simplesmente seguem a cultura?

Entrevistado: A decisão, como disse, é política. A Assembleia é um órgão que rege toda a estrutura da aldeia (comportamento, vestimenta, o que é certo/errado), então, se a pessoa que possui uma conduta como essa deseja continuar viva [na comunidade], ela não pode, em hipótese alguma, deixar isso transparecer. Porque se deixar, ele vai ser discriminado.

BLB: Sobre o grupo que estava se organizando no Alto Solimões, engajados na luta indígena LGBT, o que você tem a dizer sobre isso?

Entrevistado: Sim, eles são pessoas assumidas que lutam pelos direitos deles, eu acho que isso é um direito, de reivindicar e tudo mais, porém [eles] ainda estão inseridos dentro da cultura indígena, então eu não tenho certeza se eles serão aceitos e respeitados pelos outros povos. Eu realmente não sei qual o destino deles.

BLB: Tem um líder indígena do litoral de São Paulo que é assumidamente gay e ele falou que isso torna o preconceito duas vezes pior. Primeiro porque ele é indígena e segundo porque ele é gay. Então, ele sofre preconceito da sociedade [não indígenas] e também dentro da própria comunidade porque ele é assumidamente homossexual.

Entrevistado: É uma questão difícil de ser aceita na comunidade indígena (comunidade fechada). É capaz de obter o respeito de alguns indígenas mais estudados e tolerantes, mas a aceitação não. Aceitação é diferente de respeito.

Nesse momento, nosso entrevistado faz uma analogia ao tentar justificar o conservadorismo indígena com o fato de não podermos escolher o que queremos ser enquanto estamos dentro da barriga de nossas mães, por exemplo, “… não é possível decidir se quero ser homem ou mulher, isso para os indígenas é difícil de ser aceito. É algo fora do contexto, da realidade. É algo da cidade!”

“Hoje em dia por causa das leis e tudo mais, somos obrigados a ter respeito por esse pessoal, então a gente respeita, agora aceitar… é diferente.”

BLB: Uma pesquisa realizada na Tailândia corroborou que 75% dos entrevistados aceitavam o fato de haver amigos ou conhecidos homossexuais tranquilamente, porém os mesmos quando perguntados se esses homossexuais fossem de seu ambiente doméstico (dentro da família), a porcentagem de aceitação era inferior a 50%. Qual sua opinião sobre isso?

Entrevistado: Uma coisa é aceitar e respeitar, a outra é internalizar, e isso é muito complicado. Eu já falei com muitos pais, e eles sofrem muito para tentar aceitar um filho ou parente, mas sempre, no final, acabam não aceitando. É o que disse, na cultura indígena, existe homem e mulher (tanto em gênero quanto em casamento), algo que esteja fora disso, pra gente, é algo fora da realidade humana.

A igreja, por exemplo, ela confirma isso. Há o homem e a mulher, e eles se completam. Existiu adão e Eva. Tanto na igreja quanto na cultura indígena. A mulher completa o homem.

No final da entrevista, nosso entrevistado alegou que as lideranças do povo Baniwa exigem apenas uma coisa: respeito. Para isso, entende que é necessário respeitar para ter respeito e procura sempre respeitar todos, independente de cor, classe econômica ou local que vive porque todos são seres humanos, sentem dor, sentem fome. E por isso é necessário solidariedade com o ser humano ainda que seja com o diferente de você.

BLB: Não são todos os indígenas que comentam sobre esses assuntos, talvez pelo próprio fato de se sentirem desconfortáveis ou algo do tipo, você acredita que isso mude com o passar do tempo?

Entrevistado: Olha, eu acho que depende de cada povo. Não podemos falar por todos. Por exemplo, se o nosso povo decidiu isso, então será desse jeito. Nós trabalhamos pela valorização da cultura. Alguns querem criminalizar algumas manifestações culturais de nosso povo. Isso não é crime, é cultura. Então, esse lado que fala da cultura, é isso. Se a cultura diz assim, devemos defender e respeitar.

Fragmento do diálogo no WhatsApp (Imagem: Arquivo pessoal)

Nota

Antes de qualquer conclusão, quero agradecer a você, leitor, pela confiança e companhia até o fim da matéria. É um assunto delicado que possui muitas divergências e que precisa ser discutido sob muitas visões e de preferência com indivíduos abertos para debates saudáveis.

Depois de toda essa discussão, o que virá à sua cabeça quando ler a palavra “índio”?

Até a próxima!

Fontes

Senado
Uol
Folha