Família. Sujeito feminino que se refere a: um conjunto de pessoas, em geral ligadas por laços de parentesco, que vivem sob o mesmo tempo; um agrupamento de ascendentes, descendentes, colaterais e afins de uma linhagem provenientes de um mesmo tronco; pessoas do mesmo sangue ou não, ligadas entre si por casamento, filiação, ou mesmo adoção.

Todas essas definições são do dicionário Michaelis. Em momento algum foi citado que “família” se restringe a um pequeno grupo de pessoas necessariamente composto por uma mãe, um pai e dois ou mais filhos. Parece tosco, mas há ainda quem acredite nesse arquétipo mais do que ultrapassado e bastante preconceituoso, além de conservador.

De tempos para cá, tempos a que refiro é o pós Primeira Guerra, quando as mulheres não tiveram outra opção senão ir à luta, trabalhar, fazer os “ofícios dos homens”, quando muitas perceberam que seus maridos não mais voltariam, que elas teriam que tomar a liderança das famílias e lutar pelo pão de cada dia, foi exatamente aí que tivemos a brusca ruptura do patriarcado europeu.

No entanto, como costumo pensar, a História com o seu movimento pendular é uma ferramenta visceral para nos permitir vislumbrar as andanças que levaram a ‘evolução’ humana. Será que evoluiu mesmo?

Como comentei, no início do século XX havia turbulências, eclodiram as vanguardas com suas propostas estéticas ultra-radicais para época, uma vez que romperam com o modelo padrão e estático dos movimentos artísticos do momento e, conforme o tempo foi passando, as filosofias também foram se modernizando e, enfim, novos tipos de família foram sendo organizados.

No que tange aos novos rearranjos familiares, deixando de lado o conceito padronizado e maçante dos dicionários e afins. O que é uma família para você, leitor?

Para mim, por exemplo, família é tudo o que envolve amor e respeito. Não acho necessário dissecar os inúmeros tipos de amor, no entanto, considero justo denominar ‘família’ um grupo de dois indivíduos (independente do sexo) ou então uma pessoa e seus sete gatos de estimação, por que não?

Se há parceria, afeto e respeito entre os membros, isso não pode ser considerado uma ‘família’? Vamos lá, acho que já estamos um pouco atrasados para só aceitar o antigo molde familiar “mamãe, papai, titia” proposto pela banda ‘Titãns’, certo? Sinto arrepios e enjôos ao ouvir letras assim.

Só para nos situarmos, numa rápida pesquisa online, consegui coletar informações que revelaram a existência de outros sete tipos de família (sem contar com aquela a que estamos ‘acostumados’). São elas:

  • Família Matrimonial:aquela formada pelo casamento, tanto entre casais heterossexuais quanto homoafetivos.
  • Família Informal:formada por uma união estável, tanto entre casais heterossexuais quanto homoafetivos.
  • Família Monoparental:família formada por qualquer um dos pais e seus descendentes. Ex.: uma mãe solteira e um filho.
  • Família Anaparental:Prefixo Ana = sem. Ou seja, família sem pais, formada apenas por irmãos.
  • Família Unipessoal:Quando nos deparamos com uma família de uma pessoa só. Para visualizar tal situação devemos pensar em impenhorabilidade de bem de família. O bem de família pode pertencer a uma única pessoa, uma senhora viúva, por exemplo.
  • Família Mosaico ou reconstituída:pais que têm filhos e se separam, e eventualmente começam a viver com outra pessoa que também tem filhos de outros relacionamentos.
  • Família Simultânea/Paralela:se enquadra naqueles casos em que um indivíduo mantém duas relações ao mesmo tempo. Ou seja, é casado e mantém uma outra união estável, ou, mantém duas uniões estáveis ao mesmo tempo.
  • Família Eudemonista:família afetiva, formada por uma parentalidade socioafetiva.

Segundo dados de uma ampla pesquisa realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no Brasil, houve um aumento significativo do número de famílias administradas por mulheres, sendo elas casadas ou não.

Os fatores são diversos, no entanto, há destaque para o binômio complementar de industrialização e urbanização dos centros urbanos, o que levou à inserção cada vez maior da mulher no mercado de trabalho, bem como o aumento no custo de vida das famílias e a ampla difusão de métodos contraceptivos.

Não somente isso, as informações também elucidam que cada vez mais as mulheres estão tendo maior controle sobre o seu corpo e sobre sua vida (decisão de casar, ter filho etc). Ainda sendo uma das maiores vítimas de violência (feminicídio) e assédio sexual em transportes e afins, elas estão conquistando o seu espaço na sociedade m(achista) brasiliera.

Conceito Chinês

Mudando de país, continente e cultura, na China a história já é um pouco mais tradicional.

Para a generalidade dos chineses, a família é a célula base da sociedade, ou seja, a sociedade é construída em torno das famílias que a compõem. A sua organização depende fortemente da evolução da estrutura dos agregados familiares.

No entanto, o conceito, assim como tudo que está inserido no mundo, modificou-se. Antigamente, há muito tempo mesmo, não só na China, mas em muitas partes do mundo, a quantidade de integrantes dos núcleos familiares costumava ser exorbitante. Mãe, pai, tios, avós, filhos e tudo o que se pode imaginar, habitavam o mesmo lar. Era algo cultural.

Havia a crença (ainda há adeptos disso), de que quanto maior a família, mais próspera e segura, além de feliz esta será.

Não preciso nem dizer que a presença de famílias que não possuíam tal currículo eram mal vistas ou até mesmo discriminadas, além disso, casais gays ou lésbicos eram permitidos? Acho que a censura moderna pode responder isso.

Bom, o que se sucedeu é que o número de chineses cresceu vertiginosamente durante décadas e séculos, ainda que ela [China] tenha sido sucessivas vezes invadida por nações interessadas em suas riquezas como o Japão e nações europeias e também ter passado por duas guerras mundiais, nada disso a impediu de alcançar os 1,3 bilhões de habitantes que residem hoje no país.

Ainda que a cultura do país seja milenar e ainda se mantenha, como disse, tudo muda, tudo se transforma e as necessidades também. Para nos situarmos, em 1979, época que Deng Xiaoping ascendeu ao poder, foi adotada a política do filho único, cujo objetivo era frear o aumento populacional. Provavelmente, temendo um eventual aumento da pobreza, desemprego e etc.

Mas em 2015, Xi Jiping, o atual líder do Partido Comunista, revogou tal política porque as estatísticas revelaram uma queda da taxa de natalidade e consequente envelhecimento da população. O que traria uma queda na economia chinesa.

Os chineses passaram a ter mais filhos desde então?

A resposta é não.

Salvo excessões, para um chinês de classe média (grande maioria do país) é inviável, caso ele já tenha um filho, ter outro, pois uma prole implica custo e, viver numa sociedade mega globalizada, que exige gastos desde educação e saúde até o lazer, faz com que muitos optem por não ter um filho ou se já tenham, apenas um está de bom grado.

Mas o que tudo isso tem a ver com doramas, BL, família?

Calma, todo esse panorama serviu para situar você, leitor, que mesmo em momentos estranhos, esquisitos e sombrios há uma luz.

Há uma esperança, mesmo num país onde a censura corre solta e, em específico hoje, é uma cultura que vem recebendo maus olhares do mundo, principalmente de pessoas pouco informadas sobre o recém surto de coronavírus.

A esperança é a arte.

A arte que por meio da música, da poesia, dos filmes, enfim, é capaz de enxergar algo de bom no fim do túnel e não permitir que a chama que está dentro de nós seja apagada.

Calma. Já vou explicar.

Vamos conversar um pouquinho sobre HIStory 2: Right or Wrong e como o novo conceito de família chegou à China.

HIStory e Família

Foto:Reprodução

Apesar do conservadorismo milenar e todos os efeitos geopolíticos na China, obras contemporâneas audiovisuais vem mostrando em sentido amplo o conceito de desmistificação da estrutura nuclear de família, em que no exterior essa configuração afetiva já existe há muitos anos.

Estamos falando de HIStory 2: Right or Wrong, que modernamente pincela com suavidade uma linha horizontal na estrutura base da família, focado na relação de Shi Yi Jie, pai solteiro e professor acadêmico; Fei Sheng Zhe, seu aluno de graduação na área de Antropologia e, Yo Yo, filha de Shi, que após a separação da mãe vive sob a tutela de seu ocupado pai.

A estrutura emocional transmitida pela série demanda o entendimento de introdução da configuração da família moderna em uma sociedade onde a tendência de afastamento precoce do seio familiar é cada vez mais rápida.

 

HISTory 2 exerce a possibilidade de constituição familiar por uma visão homoafetiva, em que em toda a trama a evolução emocional dos personagens são voltadas para um bem maior, o cuidado com a criança, orientações sociais, morais e emocionais que são trazidas de forma natural no curso da obra.

Yo Yo ao questionar sobre a impossibilidade de Shi e Feng casarem logo se deparar com uma nova visão de possibilidade, pois para seu pai a questão do gênero é irrelevante, mostrando-a que dentro da sociedade atual o tabu do conservadorismo deve ser mudado com simples atos exercidos pelos seus dois pais, o que faz Yo Yo, que já convivia bem com Feng, compreender que mesmo sem a presença diária da figura feminina, ela não deixará de ser amparada pelos seus pais.

Numa sociedade em que o simples ato de exercer afeto em público, seja ele em quaisquer configurações de gênero é um ato reprovável, mostra que o conservadorismo tende a ruir com mensagens contidas em obras como HIStory 2, que não é a primeira que aborda a temática das relações de homoafetividade com a família, porém se destaca em emergir com o tema das possibilidades constitutivas fora da construção tradicional.

Imagem:Reprodução

Diante das censuras impostas pela sociedade milenar, a obra se destaca pelo teor libertador da visão social afetiva, quebrando o estereótipo da existência familiar ao tradicionalismo arcaico que tenta vendar e esconder a existência de pessoas reais que tentam sobreviver socialmente a reprovação e repreensão da maioria.

Ficou interessado em ler sobre HIStory 2: Right or Wrong? Então clique aqui e confira a resenha completa do enredo e trama, que é uma das obras mais bem escritas da franquia HIStory:

O que você entende sobre configuração familiar? Fale pra gente aqui nos comentários. Até mais!

Nota

Texto escrito em parceria com o Vitor (Vih).

Fonte

SóHistória

Yolasite