O primeiro entrevistado foi o Kinho, indígena gay da etnia Tupinikim (também escrito Tupiniquim), vinte e três anos, do estado do Espírito Santo, atualmente universitário na UNB.

Kinho, até recentemente, não estava por dentro da comunidade LGBTQIA+ , seu primeiro contato com a comunidade foi em 2018, quando entrou na faculdade, a partir desse contato ele começou a se entender mais e se identificou com a letra G, posteriormente, em 2019, ele se assumiu para sua família e amigos como gay.

Kinho conta como o fato dele ter se assumido para sua família, que recebeu este fato muito bem, o libertou, pois antes de fazer isso ele estava se sentindo sufocado. Ele conta também como sua família o ter aceitado de cara o deixou profundamente feliz e que no meio disso, sua mãe o ter apoiado de primeiro o deixou mais feliz ainda. Depois de falar um pouco como foi se assumir para sua família Kinho nos contou sobre o preconceito fútil que sofreu na escola ao ter que ouvir comentários como “olha lá o índio gay” e coisas do tipo referentes a sua sexualidade e a suas origens étnicas.

Aline: Bem, uma coisa interessante de se ouvir quando estamos entrevistado uma pessoa indígena é que, infelizmente, sempre vamos ouvir sobre o preconceito que eles sofrem apenas por serem “diferente” dos demais. Pessoas da comunidade LGBTQIA+ também sofrem muito preconceito, então quando juntamos os dois em uma pessoa, sendo ela indígena e parte da comunidade LGBTQIA+ sempre vamos ouvir comentários de duplo racismo e preconceito.

Isso é algo muito notório, pois veja bem, quando o Kinho fala sobre os comentários que ele tinha que ouvir, a primeira coisa que ele lembrou foi da frase “Olha lá o índio gay”, tudo nessa frase está errado, tudo ali pinga preconceito e racismo. Eu como indígena sei que não é agradável de forma alguma ser chamado de “índia” ou “índio”, isso é totalmente uma ideia implantada pelos colonizadores e infelizmente tornado normal para todos falarem e ouvirem, mas nós não somos índios. Nós somos parte de um povo, assim como o Kinho é Tupinikim, quando alguém vai falar com ele, ele quer que se alguém for o chamar de algo por não saber o seu nome o chame pelo nome do seu povo, ele quer ser chamado de Tupinikim e não de índio. Claro, é totalmente compreensivo que as pessoas não saibam de primeira de que povo aquela pessoa veio, então no primeiro momento aceitamos ser chamados de indígenas, pois nós mesmos nos apresentamos assim, mas de forma alguma aceitamos ser chamados de índios, pois não é quem nós somos. Quando nos tornamos íntimos de uma pessoa e aquela pessoa é nossa amiga nós até aceitamos que ela nos chame de índio e isso acontece porque sabemos que ela não tem malícia ou qualquer má intenção quando nos chama dessa forma, até mesmo entre os grupos indígenas usamos o termo para brincar um com os outros, mas quando isso é falado por alguém de fora que não conhece a palavra se torna feia e super preconceituosa.

Fora o racismo da frase, ainda temos que lidar com a homofobia dela, pois com certeza a pessoa que fala isso não teve qualquer boa intenção ao pronunciá-la. Quando ele diz uma coisa dessas ele está tentando rebaixar aquele a quem ele direcionou tais palavras, como se só por ele ser gay ele devesse sentir vergonha ou se sentir menos que os outros. O fato é que quem pronuncia tais coisas é o verdadeiro “coitado”, pois provavelmente ele ainda não sabe quem é e é influenciado por terceiros com visões muito rasas do mundo. Se essa pessoa fosse bem resolvida com a própria vida e estive bem com sigo mesma ela não teria a menor necessidade ou desejo de tentar rebaixar alguém por ser quem ela é.

A comunidade LGBTQIA+ não deveria ouvir essas coisas, elas sabem quem são e elas são pessoas maravilhosas e incríveis simplesmente por não ter medo de ser e viver da forma que querem. Os indígenas sempre viveram da forma que viveram, sempre com sua própria cultura e suas próprias crenças, elas não deveriam se sentir ou ser intimidadas por ser quem são e muito menos por viver dentro de sua própria cultura e se assemelhar com as pessoas de seu povo.

Seguindo com a entrevista, Kinho também nos contou sobre algumas coisas que teve que parar de fazer apenas pelo resto das pessoas ao seu redor não o ver com bons olhos e isso o intimidar. Ele teve que parar de jogar bola e parar ou nem tentar fazer parte de alguns projetos de educação.

Mais para frente na entrevista eu perguntei se ele achava que em alguma momento as pessoas do mundo iam aceitar conscientemente os LGBTQIA+, iniciando, claro, dentro do nosso próprio povo.

Gostaria de deixar claro que a pergunta foi feita dessa forma, pois apesar de estarmos todos sobre o mesmo céu, nossos modos de vida são muito diferentes. Veja bem, assim como não posso dizer que os não-indígenas não são homofóbicos eu não posso dizer que os indígenas também não são, no fim das contas cada pessoas é uma pessoa e cada uma tem ou não seus preconceitos. Não fica muito claro na entrevista, mas entendendo as entrelinhas, podemos perceber que o Kinho, assim como outros indígenas, sofreram preconceito do próprio povo, mas também vimos exemplos em sua história, como a de sua família, que tem aqueles que aceitam e vivem bem com isso, pois no fim das contas não é nada anormal, a mesma coisa acontece na sociedade não indígena, assim como tem aqueles que vão aceitar também tem aqueles que não vão. Então a pergunta foi para saber se ele acreditava que nosso povo poderia aceitar os LGBTQIA+ conscientemente algum dia e também sobre a sociedade como um geral.

Kinho respondeu a pergunta com grande otimismo e falou que acredita sim que isso possa acontecer no futuro.

Quando pedi para ele dar um conselho as pessoas que sofriam preconceito por ser LGBTQIA+ ele disse para as pessoas que elas deveriam procurar primeiramente ajuda, então alguém para conversar e então que elas não deveriam abaixar a cabeça, pois se elas abaixassem as coisas continuariam como estão e elas não podem permanecer assim, nós temos que quebrar esse preconceito, ele disse.

Ao entrarmos no assunto das relações de pais com filhos LGBT, especificamente indígenas, ele falou que eles são bem unidos. Voltando ao seu próprio caso, ele contou como ele é muito feliz por ter o apoio de sua família, pois isso o ajuda a passar pelas coisas ruins que infelizmente ele passas as vezes, mas ressaltou que não tinha como ele saber bem como era esse o relacionamento dos outros com suas famílias, pois na comunidade onde ele mora não tem muitos indígenas assumidos, no entanto, ele acrescentou também que já viu casos de pais que não aceitaram seus filhos e os expulsaram de casa, xingaram e deixaram de dar importância aos filhos.

Falando sobre o nosso projeto, nosso site, Kinho nos contou que foi pesquisar sobre quem éramos, por tanto ele não nos conhecia até que eu entrasse em contato com ele, então nos contou que acredita sim no que fazemos e que dar espaço para as pessoas contarem suas histórias é uma coisa muito boa, pois assim vão ter aqueles que vão ouvir, se inspirar e lutar pelos seus direitos e pelo respeito que elas merecem. Ele chegou até mesmo a comentar que ele já fez parte de alguns projetos semelhantes, provavelmente em sua faculdade, e que ele apoia muito projetos como o nosso que incentivam as pessoas a serem quem elas são.

Depois que as perguntas da entrevista acabaram eu e o Kinho começamos a conversar e eu perguntei a ele o que ele achava do duplo preconceito que recibimos quando éramos indígenas LGBT. Ele concordou sobre o duplo preconceito e da surpresa e curiosidade dos não-indígenas ao ouvir que existe sim indígenas LGBTQIA+, ele contou que após conhecer a comunidade LGBT ele mesmo foi pesquisar sobre os indígenas LGBT e ouvir os relatos destas pessoas, então é notável que este, infelizmente, não é um assunto comum nem entre os indígenas e nem entre os não-indígenas, mas que deveria ser algo mais difundido para houvesse mais pessoas para se identificar conosco.

Conversamos também sobre a normalização da existência dos indígenas na era atual, pois não somos história, nós somos o presente, somos contemporâneos; colonização e a interferência da cateterização dos indígenas no seu modo de ver o amor homoafetivo. Quando falamos sobre esses assuntos eu perguntei para ele se ele achava que o mundo acharia mais normal ter indígenas LGBT no mundo se primeiro eles achassem normal ter indígenas no mundo, então comentei e perguntei sobre o modo de ensino das escolas, por exemplo, se as escolas parassem de contar que somos uma parte antiga das história e começassem a contar também que somos parte da atualidade e somos comuns na sociedade, será que todos nos veriam como deveriam ver? Eles perceberam que somos normais? (No sentido de que é normal existirem na sociedade hoje em dia). Kinho concordou sobre meu ponto de vista, de que se as escolas nos normalizasse, não teria surpresa quando alguém finalmente nos conhecesse e então quando soubessem que somos indígenas elas também não ficariam surpresas.

Aqui nossa conversa foi interessante, pois eu falava e ele gesticulava concordando com as coisas, mas não necessariamente falando, então a maior parte dessa conversa virá da minha interpretação dele e do meu conhecimento. Quando somos indígenas as pessoas ficam chocadas ou surpresas quando nos conhecem, mas maioria das vezes elas estão animadas por nos conhecer, mas eu diria que o sentimento de surpresa é bem maior. Eles geralmente dizem que nunca viram um indígena antes e fazem várias perguntas sobre nós e nosso povo, então conversamos e falamos como é o nosso povo específico e que não dá para generalizar com os outros povos e etc.; ainda acho surpreendente como eu tenho amigos dos quais eu fui a primeira indígenas que eles conheceram. Na minha cidade natal a maior parte da população é indígena então acho que posso dizer que cresci em um ambiente protegido, longe do racismo, eu aprendi português, inglês, espanhol, Baniwa (minha língua), Tucano, Nheengatu e Yanomami (outras línguas indígenas) como se fosse normal aprender tudo isso ao mesmo tempo. Quando eu saí do meu interior, que, sim, era uma cidade e não uma comunidade, para ir para a capital estudar eu achei muito estranho só ensinarem português, inglês e espanhol, e achei mais estranho ainda que as pessoas não estivessem familiarizadas com os indígenas, foi um choque terrível e foi mais assustador ainda ver os livros de histórias, onde se tem uma ou duas folhas falando sobre o povos indígenas já é muito e mesmo assim é só no tempo da descoberta. Isso é uma grande falha no nosso sistema de ensino e agora que querem tirar historia da grade curricular do estudante isso é ainda mais assustador. Eu penso que se as escolas ensinassem que é normal ter indígenas na sociedade andando com roupas, atendendo o celular e trabalhando como qualquer outro ser humano normal as pessoas não ficariam surpresas e nem chocadas mesmo que se só nos vissem pela primeira vez com quarenta anos, pois desde cedo elas teriam sido ensinadas que é normal estarmos no meio da sociedade. Então, se fossemos normalizados e se nos vissem como algo natural da sociedade elas não ficariam chocadas também quando disséssemos que tem sim indígena LGBT no nosso povo.

Agora, entrando no contexto da catequização e colonização, nos concordamos que a religião interferiu sim muito na forma dos indígenas reconhecerem o amor homoafetivo. Nós temos nossas histórias de origem do mundo e humanidade assim como as pessoas das religiões e da ciência. Nossas histórias podem ou não ter muitas amarras dependendo do povo, que tem uma história diferente da outra dependendo de sua etnia. Quando os catequizadores chegaram e impuseram a religião eles começaram a decidir por nós o que era e o que não era errado, que tipo de amor valia e que tipo de amor era errado, então (meu ponto de vista) nossos ancestrais com pensamentos mais maleáveis e com certo preconceito concordaram com o que eles diziam ou foram forçados a concordar por meio da força. Na maioria das histórias de origem da raça humana algum ser supremo fez o homem e como nossas histórias tem certa semelhança com a da bíblia eles usaram aquilo como desculpa para nos tornar homofóbicos e também para largar nossa cultura, pois ali eles diziam, com palavras de mel que nem sabíamos ler, que estamos vivendo em pecado e adorando o demônio apenas por estarmos vivendo de acordo com nossas culturas. Mas isso, este parágrafo, olha só, já se transformou na minha opinião misturada com a entrevista e com a história do nosso país e do meu povo. A grande questão aqui é que a religião imposta pelos colonizadores interferiram muito no modo como os povos indígenas viam o mundo, a sociedade e como tudo deveria ser.

Kinho disse que ele concorda e acredita que a religião interferem no modo como as pessoas se vêem, interfere no modo que a pessoa vê quem ela é e no seu modo de vida, às fazendo esquecer que o importa é o amor, às vezes interferindo até mesmo no seu modo de vestir e, principalmente, isso interfere na orientação sexual das pessoas. (Aqui ele se refere aos indígenas e a religião, mas também achei válido para as pessoas em geral). Ele pensa que a religião afasta muito a pessoa do ‘ser humano’, do ‘ser eu mesmo’.

Depois disso eu perguntei se existe uma “desculpa” cultural para eles possivelmente serem homofóbicos.

Então vamos desde o começo, não dá para generalizar os povos indígenas, já comentei isso antes, e não dá para generalizar um único povo indígenas. É como alguém dizer “esses russos malucos” e achar que todo russo e maluco, isso não é verdade e é algo que precisa ser deixado claro aqui, então me perdoem se eu ficar os lembrando disso.

Primeiramente eu falei do meu povo, que como eu também já disse antes, sempre existiram pessoas que eram e não era preconceituosas, então comentei como a religião acabou se entrelaçando com nossa história e fazendo, infelizmente, ter mais pessoas homofóbicas que agora usavam a desculpa da história da origem da humanidade, nossa e da bíblia, então ele nos contou sobre ele. Primeiro ele falou da importância de não termos medo de sermos repudiados pelo nosso povo, então falou que seu povo está, em sua maioria, no litoral e que por isso teve muita intervenção religiosa e de como isso afetou o modo das pessoas indígenas olhar o mundo. Mas além disso, ele não deixou de falar do próprio preconceito das pessoa que fazem parte da comunidade e de como eles educam seus filhos assim, os tornando também homofóbicos já que eles vão imitar seus pais. (Novamente, não é para generalizar, aqui, quando ele fala “povo” e “pessoas” ele não está falando de todo mundo, ele está falando de alguns casos que já viu). Então ele ressaltou que a educação é muito importante para as pessoas não terem preconceito e que se ele tivesse um filho ele o ensinaria sobre tudo, a adversidade das pessoas, dos sentimentos e que independente da raça ou religião, o que importa ali é o amor. Ele disse também que não usaria a religião ou o preconceito como desculpa (Para ser ruim eu presumo).

Infelizmente, independente de ser indígena ou não, existem pessoas preconceituosas.

Nos fim Ele voltou a agradecer sobre o espaço de fala que estamos dando para as pessoas e agradeceu por estarmos ajudando pessoas a serem quem elas são, independente de serem LGBT ou não ele está feliz por as ajudarmos a se descobrir e disse que está feliz por estar contribuindo com o projeto.

Ele me elogiou também, né, mas vou deixar em off, vocês podem ouvir isso no áudio/Vídeo.